Existe uma certa obsessão da mídia por ídolos provenientes de lugares obscuros, como serial killers, por exemplo. Por possuírem dupla personalidade, que navega entre o encanto e o diabólico, o cinema (entre outras artes) se apodera de suas caracterizações para desenvolver personagens intrigantes e com camadas. Há acertos e erros em retratar na tela pessoas tão emblemáticas, porém, uma coisa é certa: em um projeto cujo protagonista é o infame Ted Bundy e o roteiro o coloca como centro da narrativa, é praticamente impossível que não haja uma inconveniente romantização de sua história e, com isso, ‘Ted Bundy: A Irresistível Face do Mal’ (Extremely Wicked, Shockingly Evil and Vile) encontra dificuldades de acertar seu tom, e o pior de tudo: escolher um lado.

Ainda que seja difícil fazer qualquer produto sobre Bundy sem citar seu lado charmoso e sedutor, afinal, o assassino despertou uma bizarra empatia na mídia e conquistou inúmeros corações durante o período de seu julgamento, o longa o coloca quase como um símbolo sexual, principalmente pela escalação do astro Zac Efron (O Rei do Show) como o protagonista, e força esse caminho de adoração por boa parte da obra, sendo que a primeira metade do filme é um romance com Bundy no pedestal. O roteiro, ainda que busque alternativas de contar a história sem cair em clichês, escolhe esconder o fato de que Bundy é culpado de seus crimes, na tentativa de nos deixar intrigados, porém, é aí que mora o grande problema: dar o ponto de vista ao assassino. Afinal, se a trama fosse guiada pelos olhos de Liz Kendall (Lily Collins), importante chave para essa história, o espectador saberia das atrocidades de Bundy, mas Liz não, e com isso, o suspense seria melhor desenvolvido em torno dessa jornada de descoberta.

No entanto, há elementos positivos após a conturbada primeira metade do filme. Bundy sabia utilizar as mídias ao seu favor e seu julgamento é verdadeiramente um espetáculo televisionado e manipulado por ele. Sua inteligência perversa e o olhar de falsa inocência são pontos ressaltados pela atuação de Efron que, apesar de não ter semelhanças com Bundy, entrega um personagem genuinamente cínico e carismático, mesmo que o grande destaque do elenco seja para Lily Collins (Os Instrumentos Mortais), o ator mostra tamanha evolução em sua atuação e certamente seguirá por esse caminho dramático. Kaya Scodelario (Maze Runner: Correr ou Morrer) é outra que está bem e convincente em seu papel de Carole Ann Boone, a amante que esteve com Bundy durante o longo julgamento nos tribunais. O elenco jovem, proveniente de franquias de sucesso nos cinemas, é assertivo e trás uma energia atual à trama de época.

Como já citado, o longa assume uma posição de romance boa parte da trama e escolhe não mostrar violência gráfica, ou seja, é um filme sobre um dos mais cruéis assassinos da história dos EUA e que não há nenhuma morte retratada, já que seu foco é nas consequências de seus atos. Essa decisão, claro, respeita a tragédia real que muitas famílias vivenciaram, já que Bundy assassinou brutalmente mais de 30 jovens ao longo dos anos e ver isso explícito nos cinemas é de total desconforto, porém, dá ao filme um tom de indecisão e tédio. A direção de Joe Berlinger (que inclusive dirigiu o documentário ‘Conversando com um serial killer: Ted Bundy’, para a Netflix) tem momentos caóticos de câmera na mão sem necessidade e seus enquadramentos não favorecem a narrativa dramática, muito culpa também da montagem picotada e acelerada que, inicialmente, torna o filme confuso e desgastante. Felizmente, o suspense ganha forma após um tempo e a trama prende um pouco mais na promessa da resolução, quando se torna um clássico “filme jurídico”.

Ainda assim, em épocas de obras como ‘Olhos que Condenam’ (Netflix), que criticam o sistema judiciário americano, ‘Ted Bundy: A Irresistível Face do Mal’ soa ultrapassado ao dar voz e ponto de vista a um assassino perverso, cuja admiração por sua vida de inteligência e sedução também está estampada no roteiro problemático. Nada mais é que um romance brega disfarçado de suspense, que põe Bundy em um pedestal e glamoriza sua vida de crimes ao deixá-la de lado para focar no seu suposto carisma enigmático. Mesmo que haja bons momentos dramáticos ao retratar a sociedade do espetáculo e Zac Efron tenha sido uma boa escolha, é de se questionar a necessidade de haver um projeto tão devotado à Bundy, um assassino de mulheres, quando o cinema vive uma importante luta por igualdade.

Ted Bundy foi levado a julgamento e condenado à pena de morte por eletrocussão na Flórida, dia 24 de janeiro de 1989. Ele só confessou seus crimes horas antes de morrer.

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