Um remake trata-se de uma refilmagem que busca ser o mais fiel possível ao material original e, geralmente, tem como elemento fundamental resgatar a essência de uma obra e apresentá-la para um provável novo público. Por conta disso, é complicado chamar o “live-action” de ‘O Rei Leão’ (The Lion King) de “uma nova versão”, já que de novo, só mesmo a técnica de computação gráfica utilizada, ou seja, o filme é um remake extremamente leal ao material de base e é aí que mora a ambiguidade. Ao mesmo tempo que a fidelidade é assustadora de tão presente, também é o seu maior defeito, afinal, é impossível fugir da péssima sensação de que estamos vendo o mesmo filme duas vezes, com a diferença de 25 anos entre um e outro.

Talvez por medo de mexer em time que já ganhou, tanto a Disney quanto o diretor Jon Favreau (Homem de Ferro) optaram por não causar grande impacto na trama, diferente de outros live-actions, como ‘Dumbo’, por exemplo, que utiliza apenas a premissa básica do original para compor uma nova história, com novos personagens, ‘O Rei Leão’ é um perfeito “copie e cole”, em que até mesmo as falas dos personagens são recriadas com a mesma exatidão do passado. Dessa forma, a justificativa para refazer o clássico fica apenas para atualizar alguns pequenos detalhes já datados e para dar um pouco mais de espaço para animais menos presentes, como é o caso da leoa Nala (com a voz da Beyoncé), que possui mais cenas e falas dessa vez. Fora isso, não há nada de novo ou diferente para ser visto.

No entanto, a qualidade técnica da produção é o mais alto nível de sofisticação dentro da própria Disney. Por conta disso, o “live-action” nada mais é que um filme animado. Os animais, feitos através de computação, são hiper-realistas à ponto de ser até difícil distinguir se, de fato, são digitais. As plantas, o solo, os cenários da África, tudo é colorido, vibrante e verossímil. Dessa forma, mais uma vez é algo bom, mas que tem um peso negativo por outro lado. O excesso de realismo impressiona sim, mas causa estranheza, principalmente quando os animais estão falando ou cantando, mesmo que haja som ambiente e pequenos rugidos junto com a fala, algumas cenas são bizarras e realmente remete aos programas do Animal Planet, em que animais são “dublados”, mas nada que prejudique a compreensão da narrativa, que aliás, segue com um bom ritmo, algo corrigido da apressada animação de 1994.

As canções são parte fundamental da trama e todas estão presentes, assim como no original, guiando-a para frente, enquanto diverte e, dessa vez, explora mais profundamente as maravilhas da selva. A trilha do Hans Zimmer (Interestelar) é sensorial e grandiosa, sendo um dos principais elementos que torna o filme tão teatral e épico. Já Beyoncé, com sua voz ímpar, é a força da natureza que acrescenta ainda mais vida à obra, seja cantando ou mesmo dublando. Aliás, todo o elenco de dubladores está excepcional, mas o destaque mesmo fica para a dupla Seth Rogen (que faz o Pumba) e Billy Eichner (a voz do Timão), que deixam o lado teatral e engessado de lado e dão muito carisma aos personagens, com piadas mais dinâmicas em um perfeito time cômico. Sem dúvida, Timão e Pumba roubam a cena, divertem e utilizam um texto bem existencialista para retratar assuntos como bullying, amizade, liberdade e gordofobia, essa última é uma atualização bem-vinda do roteiro, que rende uma cena curta e divertida com Pumba “enfrentando seus medos”.

Ainda que trazer para o mundo real personagens caricatos seja uma tarefa complexa e as escolhas da produção são, no mínimo, plausíveis, há coisas que somente a animação pode contornar e suavizar, como por exemplo, o visual de alguns animais tipo o Pumba, que em sua versão realista não possui o mesmo encanto que em desenho. Já o vilão Scar (Chiwetel Ejiofor) é um exemplo que funciona melhor agora do que antes, tanto na aparência quanto em sua personalidade menos megalomaníaca e mais emocional. A direção de Favreau, apesar de replicar alguns enquadramentos já existentes, é astuta e ritmada.

Dessa forma, é o hibridismo entre o clássico e o novo, somado a deslumbrante qualidade técnica da produção, que faz o remake de ‘O Rei Leão’ encher os olhos de puro encantamento. Porém, dramaticamente tem problemas na estrutura da trama e desperdiça a oportunidade única de trazer novidades a uma história tão teatral e datada. O excesso de apego ao passado prejudica e, somente por isso, impede que esse seja um dos melhores filmes do ano, mas por outro lado, é o mais fascinante remake da Disney até agora. É difícil não se arrepiar.

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