Para começar a falar sobre ‘Shaft’, filme de ação que chega ao Brasil pela Netflix, devo recapitular que esse se trata do quinto filme de uma popular franquia que teve seu início nos anos 1971, com o movimento cinematográfico chamado Blaxploitation, sendo essa nova versão uma sequência direta do filme de 2000, estrelado por Samuel L. Jackson (Capitã Marvel), que volta para reprisar seu papel de John Shaft II, o detetive durão que trabalha sozinho em casos que o FBI não consegue solucionar. Apesar de contar com o retorno do astro, essa nova trama tenta atualizar a história da família Shaft e introduz o jovem John Shaft Jr. (Jessie Usher), filho e “herdeiro” do legado deixado por seu avô (Richard Roundtree, que também faz uma participação neste) e seu pai.

Mesmo se tratando de um capítulo novo, o filme segue o padrão sequência/remake, ou seja, bebe da fonte dos anteriores mas funciona perfeitamente isolado. Dessa forma, não é necessário assistir os filmes anteriores, mas quem assistir, certamente vai pegar alguns easter eggs e se situar no clima noir que a franquia estabelece. Ou pelo menos estabelecia até aqui, já que essa nova trama é muito mais comédia de ação que qualquer outra coisa. Nela, após a morte suspeita de um amigo próximo, John Shaft Jr. resolve pedir ajuda a seu pai para resolver o caso. Ele aceita deixar a aposentadoria para iniciar a investigação, apesar dos problemas existentes com o próprio filho.

A estética do diretor Tim Story é magnifica, mesmo já tendo comandado bombas como os dois ‘Quarteto Fantástico’ e tendo uma certa dificuldade de manter ritmo em seus filmes, o diretor sabe contar boas histórias envolvendo a cultura negra americana e aqui sua visão criativa é eficiente e condizente com a proposta. Os planos são bem elaborados e, de fato, a franquia se encaixa em seu estilo como uma luva. Porém, o maior problema e o que afeta drasticamente nosso envolvimento, está no roteiro fraco. A trama começa enérgica e divertida, mas vai se apagando aos poucos, até não restar mais nenhum carisma de sua narrativa arrastada. As quase 2 horas passam lentamente e a história não avança para lugar nenhum, se repetindo a todo tempo, tanto nas piadas sem graça, quanto em cenas extremamente parecidas. É difícil não cair no tédio após metade do filme.

Como se não bastasse a história sem rumo, o ritmo também volta a incomodar. O excesso de cortes, feitos na montagem, cria uma falsa sensação de andamento da trama, e os diálogos intermináveis entre os personagens perdem força quando a cena não progride, resultando em uma enorme “barriga” dramática que nem mesmo o clímax com ação consegue superar. Aliás, as cenas de ação, que costumavam ser o ponto alto da franquia, são bem poucas e isoladas, sendo quase todas abaixo das expectativas. É só pegar ‘John Wick’, por exemplo, e fazer uma comparação. Ainda assim, há pontos positivos na atuação de Jessie Usher (Independence Day: O Ressurgimento), já que Jackson, apesar do carisma inegável, vive praticamente o mesmo papel repleto de “motherfuckers” que tem representado em pelo menos metade de seus papeis no cinema.

O humor funciona até certo ponto, quando começa a ficar repetitivo e ofensivo além da conta. O personagem de Jackson vive um senhor de outra geração, que tem dificuldades de compreender esse mundo moderno. Com isso, o roteiro acha conveniente fazer piadas clichês com machismo, homossexualidade e até mesmo racismo, exatamente como o senhor Clint Eastwood acreditou ser genial fazer no drama misógino ‘A Mula’. Se a primeiro momento até faz rir, logo perde a graça e a forçação de barra domina por completo. Mesmo assim, de fato é um filme representativo, tendo seu elenco completo estrelado atores/atrizes negros. Regina Hall (A Chefinha) está fantástica como de costume, mesmo com seu papel minúsculo, e Alexandra Shipp (Com Amor, Simon) é uma doçura em cena. Toda a trama é guiada por uma boa trilha sonora, repleta de clássicos, que ajuda a construção da atmosfera nostálgica.

Levando-se em consideração esses aspectos, ‘Shaft’ até tenta atualizar a franquia para os novos tempos, porém, o roteiro fraco caminha para lugar nenhum, enquanto o tédio se estabelece pela falta de intensidade em um filme cujo seu maior legado é o humor preciso e a ação desenfreada. Nem mesmo o carisma marcante de Samuel L. Jackson o salva de ser mais uma superprodução que desanda pelo excesso de pretensão. Talvez seja a hora de deixar essa franquia de quase cinquenta anos descansar em paz, antes que regrida ainda mais.

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