Tragédias inspiram o cinema desde seu surgimento. O poder de colocar o espectador dentro de um contexto imersivo, onde estão seguros em assistir, mas tensos pela atmosfera de perigo é, sem dúvida, conquistado através da sensibilidade do olhar de alguns cineastas. Enquanto Roland Emmerich, por exemplo, amplifica o caos em níveis épicos e torna a tragédia o grande espetáculo, como fez em ‘Independence Day’ e ‘O Dia Depois de Amanhã’, outros, como o novato Anthony Maras, prefere dialogar com o realismo para dar palco à fatalidade, como faz sobre Atentado ao Hotel Taj Mahal, em novembro de 2008, que deixou 175 (incluindo 9 terroristas) mortos e mais de 600 feridos pela cidade indiana de Bombaim.

Tal fato é tão peculiar e angustiante, que poderia dar absurdamente errado ao ser retratado no cinema, por sorte, o roteiro e a direção de ‘Atentado ao Hotel Taj Mahal’ escolhe contar a tragédia do ponto de vista de personagens carismáticos, foge de possíveis explicações grandiosas para tais acontecimentos e utiliza seu tempo extra para focar no horror contido e na força dos sobreviventes para sair daquela situação. Ou seja, colocar o espectador dentro do Hotel, como um personagem, é assertivo e funciona dentro do extremo realismo proposto. No entanto, o excesso de brutalidade incomoda, mesmo que seja um retrato fiel da realidade e isso venha anexado ao objetivo do filme, é difícil de assistir sem sentir a intensidade. Certamente não é para estômagos fracos e precisa ter cuidado para não ser interpretado com um gatilho.

Ainda assim, a trama segue um bom ritmo, dinâmico e instigante, já que acompanha os personagens em diferentes situações, auxiliada pela boa montagem, que entrelaça as histórias e divide a ação entre os grupos de sobreviventes. Dessa forma, o suspense é crescente e a nossa atenção é mantida em foco por todo o filme. A direção inquieta de Anthony Maras torna o thriller ainda mais enérgico e aflitivo, além disso, o roteiro utiliza os personagens como alavancas para guiar a história pelos corredores do local. Entre os personagens, temos o jovem cozinheiro Arjun, vivido pelo talentoso Dev Patel (Lion: Uma Jornada Para Casa), o casal David (Armie Hammer) e Zahra (Nazanin Boniadi), o chef Hemant (Anupam Kher) e o russo misterioso Vasili (Jason Isaacs). De certa forma, todos entregam o que é proposto e o destaque maior fica mesmo para Patel e seu carisma absurdo.

Porém, é o hotel em si que funciona como o grande protagonista. Todas as subtramas giram ao seu redor e sua forte presença o torna quase como um lugar sagrado, místico, que está sendo violado por terroristas e que, assim como os personagens, fará de tudo para se manter íntegro. Essa decisão sábia do roteiro, de colocar a cultura indiana no centro, mesmo que se trate de uma visão americanizada, mostra o cuidado da produção aos detalhes, até o idioma principal não é o inglês. Apesar de mostrar alguns diálogos islâmicos, os terroristas são sim cruéis, mas não são mostrados como monstros sanguinários. Nessa visão da história, são humanos falhos, que acreditam plenamente na religião e que estão sob pressão de alguém superior. Certo ou não, essa é a decisão mais sábia para fugir do eventual “vilanismo” que esse tipo de gênero cai.

Toda a estética é bem realizada, em especial a fotografia sépia e terrosa do exterior, em contraste com luzes frias do interior do hotel. Mesmo com evidentes acertos, em especial no ritmo e na atmosfera, o roteiro prefere centrar a trama na contagem de corpos para amplificar o impacto emocional do atentado. Essa manipulação barata é necessária e muito utilizada em filmes como este, mas aqui passa um pouco do ponto em determinadas cenas e o resultado é exagerado demais, tendo esse como o principal fator negativo.

Por todos esses aspectos, ‘Atentado ao Hotel Taj Mahal’ é um retrato nu e cru da brutalidade que foi a tragédia de 2008. A trama manipula nossos sentidos para nos colocar em situações de verdadeiro horror psicológico e, com isso, nos mantém na ponta da cadeira a maior parte do tempo. Mesmo que haja um certo exagero na violência gráfica mostrada, que visa manipular nossas emoções, é a busca pelo realismo o verdadeiro triunfo e, sem dúvida, o filme vai embora para casa com você após a sessão.

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