É de se agraciar o filme que consegue transbordar em sua trama um assunto do cotidiano que, mesmo presente em determinadas discussões, ainda é pouco explorado nos cinemas (em especial no cinema nacional), que é o fanatismo religioso. No entanto, a obra se torna ainda mais relevante quando se utiliza desse fato para se aprofundar minuciosamente na doutrina que a religião provoca na sociedade, sem ter o intuito de debochar, mas sim de fazer refletir sobre nossos valores, crenças e até onde o amor propriamente dito pode chegar com a ajuda dos conceitos e signos criados pela civilização. Parece complexo e ousado lidar com esse tema. Tendo isso em mente, ‘Divino Amor’ se passa em um futuro próximo distópico, que desfruta da ficção científica para ter mais liberdade criativa, fugindo então do drama realista que se poderia esperar.

O que o roteiro inteligentíssimo faz é pegar um assunto polêmico, dentro de um país onde a religião deseja ocupar lugar na escola e no governo, e transformar em uma realidade relativamente distante, em um Brasil de 2027, praticamente doutrinado pela crença religiosa, onde os líderes religiosos são como anciões, que determinam o tempo que casais devem permanecer juntos e que o amor nunca pode acabar, até mesmo incentivando a troca de casais no ato sexual para estimular o tesão em relacionamentos desgastados com o tempo. A trama apresenta situações tão comuns hoje, em 2019, e ao mesmo tempo tão arcaicas, e seu maior triunfo é não lidar com isso através do sarcasmo, mesmo que haja um tom cômico, isso é dado pelos absurdos de algumas situações e como a tecnologia também pode servir para aprisionar ideologias. Ou seja, o filme renderia um ótimo episódio de ‘Black Mirror’.

No futuro da trama, o clima é sombrio, semelhante ao estilo de ‘The Handmaid’s Tale’, onde a esperança se resume, em grande parte, na procriação da espécie humana, incentivada pelo Governo Federal, e personagens como a protagonista Joana (vivida pela talentosíssima Dira Paes) vivem o dilema de ver sua vida amorosa morrer lentamente ao mesmo tempo em que incentiva casais a ficarem juntos, dificultando o divórcio e os levando para o templo chamado Divino Amor, onde podem encontrar a “cura” para a degradação dos seus sentimentos. A direção de fotografia capta esse clima futurista e insere muito neon pelas ruas, assim como o design de produção trabalha os cenários e as ideias inusitadas, como o culto rápido através do drive thru, cômico e trágico ao mesmo tempo. A direção do pernambucano Gabriel Mascaro (do ótimo Boi Neon) surpreende mais uma vez e o coloca no patamar dos grandes realizadores brasileiros, ao menos, sua visão criativa é inovadora e cativante.

Ainda que haja um cuidado do roteiro em não citar determinadas religiões, já que o núcleo da trama em si é o controle da igreja perante o indivíduo, pelos rituais, é possível identificar a quem a crítica social do projeto se dirige e, de fato, é uma igreja digna de reflexões e questionamentos devido as suas práticas conservadoras. A protagonista é ambígua e cheia de camadas que não se relacionam entre si. Ela acredita no amor verdadeiro e quer ter um filho para ser aceita na sociedade, mas vê seu relacionamento se desgastando, ao mesmo tempo que luta pela relação dos outros. O filme está repleto de simbolismos, como as flores, que estão por toda a casa e que começam a morrer conforme o amor do ambiente se apaga. As contradições são elementos fundamentais para exemplificar a falta de responsabilidade que a religião pode ter sobre uma pessoa e seu estilo de vida, muito bem trabalhadas aqui.

O elenco entrega até mais do que a trama propõe, em especial Dira Paes e seu talento descomunal no drama. Júlio Machado também segura com maestria a carga emocional de seu personagem e Thalita Carauta tem uma participação pequena, porém hilária, o mais próximo de alívio cômico que a trama desenvolve. A narrativa segue com um ritmo bom, mesmo que utiliza tempo demais em sequências menos interessantes, não há cansaço ou tédio e a voz da criança, que narra e contextualiza o filme, colide em um desfecho espiritual, poético e intrigante ao deixar as perguntas em aberto. Sem dúvida, um acerto.

Dessa forma, ‘Divino Amor’ mescla perfeitamente o erotismo com a doutrinação religiosa, para entregar uma obra sublime e audaciosa, que faz uma severa crítica ao conservadorismo. Um retrato distópico de um país onde a religião e a igreja exercem forte influência sobre as ideologias. Lugar onde muitos utilizam o nome de um ser supremo para extrair até a última gota de adoração e fidelidade. Vai incomodar e fazer barulho e, por conta disso, é um filme tão essencial e indispensável para os dias de hoje.

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