Dificilmente uma franquia com tantos filmes consegue manter sua qualidade após um tempo. Ainda mais quando esses filmes são histórias diferentes, mas que dividem um universo compartilhado. Com exceção da Marvel Studios e seus anos de planejamento, poucos conseguiram. No entanto, se tem uma franquia que não desistiu ainda foi ‘Invocação do Mal’ e seu “Invocaverso”. Começou muito bem e original, sob o comando do visionário James Wan (Jogos Mortais, Aquaman), e decaiu ao longo dos anos, principalmente com os derivados ‘A Freira’ e ‘A Maldição da Chorona’. A boneca macabra foi apresentada em 2013 e ganhou dois longas após isso. Ambos conseguem ser bons, em especial o segundo, mas ainda assim, não alcançam a atmosfera densa e a qualidade estética de Wan, o que, para nosso deleite, é resgatado parcialmente em ‘Annabelle 3: De Volta Para Casa’ (Annabelle Comes Home).

Digo “parcialmente” pois ainda falta mais estilo para alcançar um patamar de prestígio dentro da franquia, ainda assim, é evidente que a produção corrige erros do passado e o roteiro se empenha em entregar sustos mais elaborados, ao contrário de outros derivados, até mesmo a direção de Gary Dauberman (que apesar de ser sua primeira vez dirigindo um longa, já escreveu o roteiro dos dois filmes anteriores e o de ‘A Freira’) se inspira na abordagem de Wan, talvez por já estar relacionado com a franquia por alguns anos e saber exatamente o que funciona ou não, seu trabalho foi eficiente e elaborado com carinho para que o projeto não desandasse por completo.

A premissa é simples, a boneca Annabelle retorna para a casa de Ed (Patrick Wilson) e Lorraine Warren (Vera Farmiga) após ser “recolhida” por eles do lugar onde a história dela parou nos filmes anteriores. Conhecemos como ela vai parar dentro da caixa de vidro que a protege e que sua força maligna é superior a todos os objetos amaldiçoados que estão em uma espécie de museu que o casal projetou em sua casa. Certa noite, a filha do casal, Judy (Mckenna Grace), fica com sua babá e uma amiga, que decidem explorar o lugar e acabam libertando entidades além de sua compreensão. Ao estilo ‘Scooby-Doo!’ (no melhor sentido possível!) o lugar se torna um parque de diversões para os espíritos e todos sob o comando de Annabelle.

Se por um lado o roteiro acerta em elaborar os sustos e fugir o máximo possível dos temidos jump scares, por outro, a trama se desenvolve de forma lenta e há uma bagunçada pelo excesso de entidades que o filme apresenta. Desde um Lobisomem em CGI, passando por uma TV que mostra o futuro e um Samurai assustador, entre outras criaturas e objetos sinistros, que deixam a boneca, que dá título ao filme, de lado. Aqui, Annabelle funciona como uma coadjuvante, apenas exercendo domínio sobre novos personagens que certamente serão explorados em outros filmes, ao mesmo tempo que resgata alguns elementos dos filmes anteriores, como a menina que viveu a jovem quando era viva e o demônio de chifres do primeiro filme.

Apesar desse excesso, o roteiro (na medida do possível) encontra uma forma de dar espaço para cada subtrama, já que visivelmente seu objetivo central é explorar com vigor o tão misterioso museu e saciar nossa curiosidade. Dessa forma, a personagem Daniela (Katie Sarife) funciona como o espectador, que investiga cada objeto do lugar. O elenco é bom, em especial a jovem Mckenna Grace (A Maldição da Residência Hill), que mergulha em seu papel com veracidade e até emociona com tamanho carisma. Madison Iseman entrega o que sua personagem propõe e já é melhor que muitas “final girls”, isso é um ponto positivo. Já Farmiga e Wilson aparecem bem menos, afinal não é um filme sobre eles, mas sua presença reacende o magnetismo que fez a franquia ser tão querida.

Além disso, a construção das personagens é eficaz e suas jornadas visam o amadurecimento, concluídas em um desfecho justo e, de certa forma, esperado. A relação da menina e o peso de ter que lidar com o fato dos pais serem paranormais e o quanto isso afeta suas relações pessoais, também é um ponto positivo, que serve como subtrama para engrandece a personagem. Todo o enredo é simplista e seu foco é, de fato, divertir e assustar, sem ser pretensioso como ‘A Freira’ foi. A direção de fotografia valoriza e ressalta o escuro, como a franquia costumava fazer, e baseia seus sustos apenas na atmosfera de medo e pânico que o ambiente causa, fator que torna o terror bem mais intimidante e inteligente.

Dessa forma, por ser tão direto e descomplicado no que se propõe, ‘Annabelle 3’ é uma agradável surpresa, que funciona bem mais que os outros filmes desse universo. Seu objetivo é simplesmente divertir, assustar e fazer uma viagem aterradora pelas criaturas e objetos amaldiçoados do museu dos Warren. A experiência leva do riso à tensão, exatamente como um passeio por um parque de diversões. Certamente, o melhor filme da trilogia e o que expande e revigora esse a franquia para novos caminhos. Ver isso após tantos deslizes, é o que faltava para aguardar com ansiedade a chegada de ‘Invocação do Mal 3’.

Comments