Em um mercado tão rico culturalmente como o Brasil, é de se estranhar que as grandes produções nacionais não abordaram todo o potencial de gêneros possíveis da dramaturgia. Foi buscando justamente inovar em tema e abordagem que a Netflix juntou uma equipe de peso para produzir O Escolhido, primeira série nacional de suspense sobrenatural. Com acesso aos 4 episódios iniciais do seriado, podemos dizer que a inovação do tema ainda esbarra em velhos vícios da ficção televisiva, mas existe chance de melhora.

Na trama acompanhamos a ida dos médicos Lúcia (Paloma Bernardi), Damião (Pedro Caetano) e Enzo (Guto Szuster) até o vilarejo de Aguazul. A viagem tem como intenção vacinar as populações de localidades mais remotas, para evitar uma variação do Zika vírus que tem se espalhado pelo estado do Mato Grosso. Lá eles encontram um povo arredio, que cultua a figura de um escolhido e recusa o tratamento da medicina moderna.

Apesar de não ser a mais original das ideias, a discussão de ciência versus religião sempre gera um debate interessante, mas o problema é que a série sofre com o próprio andamento em seus primeiros 4 episódios (de apenas 6, diga-se de passagem). Os médicos possuem personalidades bem distintas, mas que não são tão bem trabalhadas a ponto de os tornarem cativantes ao público.

A ferramenta utilizada para background e profundidade são os flashbacks, que não só são colocados de qualquer maneira nos episódios, como se tornam até redundantes com o que já é mostrado no presente.

O elenco consegue segurar bem a história e deixar a trama um pouco mais pé no chão para o público, mas isso ainda esbarra em alguns diálogos forçados, que acabam soando artificiais.

A produção é a estrela de O Escolhido, sem dúvida alguma. Todo o cuidado com o pequeno mundo de Aguazul realmente faz com que o espectador acredite que existe um pequeno pedaço de terra que é místico e fora de qualquer lei científica.

Mas isso esbarra em problemas de ambientação e alguns outros detalhes que não condizem com a própria narrativa da série. Não é preciso ir muito longe de qualquer capital das regiões mais pobres do país para encontrar municípios que não tem acesso a energia elétrica, saneamento básico e até mesmo casas de alvenaria. Ao optar por filmar em uma cidade com histórico de mineração no interior do Tocantins, O Escolhido tira a imersão de acreditar em um vilarejo isolado nas entranhas do pantanal e faz parecer uma visão privilegiada sobre os lugares inóspitos do nosso país.

A direção opta por uma via mais segura. Não existem takes ou transições ousadas, então dificilmente você se surpreenderá com o que aparece na tela, seja para o bem ou para o mal.

Por fim, O Escolhido abre um caminho para produções de suspense nacionais, mas precisa de uma reviravolta grande em seus capítulos finais para que realmente dê vontade de continuar acompanhando produções do tipo.

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