A HBO é conhecida pela ótima qualidade de drama adulto de suas séries. De ‘Família Soprano’ à ‘Big Little Lies’, a essência da emissora tem se expandido para caminhos ainda não explorados e conteúdos ousados e controversos, como é o caso do drama adolescente ‘Euphoria’ que, apesar de ser uma trama tipicamente jovem, a abordagem é densa e adulta ao lidar com temas como drogas, sexo, crise de identidade, traumas, redes sociais, amor e amizade.

Estrelada pela talentosíssima Zendaya(Homem-Aranha: Longe de Casa), a trama gira em torno de uma adolescente chamada Rue Bennett, que se recupera de um pesado vício em drogas que quase destruiu sua vida, enquanto busca encontrar seu novo lugar no mundo e fazer amizades, ao retornar para casa de sua mãe por estar sóbria. Nessa jornada, a jovem cruza seu caminho com outras meninas e a série aborda suas dificuldades e dilemas. Desde a jovem que tem vergonha de seu corpo gordo, até a que tem suas fotos nuas vazadas na internet e é taxada pelos meninos da escola como “vadia”. Ou seja, não é uma série fácil de ser digerida, sua narrativa é enérgica e cativante, mas o clima é denso e obscuro. Não há comédia ou mesmo alívio cômico, as cenas são pesadas e realistas.

A produção é dedicada e a parte técnica surpreende já no primeiro episódio, tanto na direção mirabolante de Augustine Frizzell (atriz no filme ‘Sombras da Vida’), que lembra cenas alucinantes de filmes como ‘Clube da Luta’, até a direção de fotografia carregada de neon. A mixagem de som e a trilha sonora também se destacam positivamente. Em determinado momento, há uma cena em que a atriz caminha por um corredor e todo o lugar gira, ela caminha pelo teto e volta ao chão. Uma das cenas mais espetaculares e bem realizadas das séries recentes da HBO, sem dúvida.

No entanto, apesar da qualidade estética ser de alto nível, há problemas no roteiro, em especial, na abordagem de algumas cenas de sexo em que as personagens femininas são hipersexualizadas e, mesmo que esse incômodo faça parte do contexto denso, claramente há uma distorção e uma visão masculinizada e fetichista. Pegamos o filme ‘Fora de Série’ (Booksmart), por exemplo, que aborda temas adolescentes semelhantes, sem inferiorizar as mulheres envolvidas e, mesmo que se trate de uma comédia, há um certo cuidado em não exemplificar assuntos como rivalidade feminina. Ou seja, na tentativa de ser original, a série cai no clichê e comete erros complicados, como mostrar uma jovem de 16 anos que perde a virgindade por pura pressão, e também romantizar estupro (disfarçado de sexo consentido), na tentativa de chocar o espectador e preparar o terreno para os próximos episódios.

Tudo bem que tratar os dilemas da chamada Geração Y nunca é tarefa fácil, ao menos, na trama da protagonista, a série acerta precisamente e apresenta uma menina consciente de si, independe e carismática. Sua retração e ausência de expressão se contrapõe com a sua voz que narra seus sentimentos mais íntimos, como se nós, espectadores, fôssemos seus confidentes. O ritmo acelerado da montagem causa certo desconforto inicialmente, mas conforme o episódio se desenvolve, é perceptível que a ideia é retratar os fatos na velocidade que os jovens vivenciam tais acontecimentos.

Dessa forma, se ‘Gossip Girl’ encontrasse ‘13 Reasons Why’, ainda assim não seria tão intensa quanto ‘Euphoria’, que subverte o drama adolescente para algo mais profundo, obscuro e realista. A promissora aposta da HBO não é planejada para o público jovem, apesar de dialogar com seus dilemas e inquietudes. A sensação que se estabelece ao final do primeiro episódio é de que a série, na verdade, deseja atingir e chocar os adultos, ao mesmo tempo que fetichiza a juventude moderna. Só resta aguardar o circo pegar fogo nos próximos capítulos e apreciar a maravilha estética que é a produção.

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