Continuar histórias tão bem resolvidas é um problema do cinema atual, que está mais preocupado em dar continuidade ao lucro do que respeitar o encerramento de uma franquia. As animações de ‘Toy Story’, por exemplo, exalam qualidade, tanto técnica, afinal, o primeiro filme da franquia foi também o primeiro da Pixar, empresa que viria a se tornar sinônimo de talento; quanto de roteiro, já que as histórias são cativantes e dinâmicas, porém, o terceiro capítulo (lançado em 2010) chegou com gostinho de despedida e “encerrou” uma fase importante da história dos personagens de maneira satisfatória e emocional, fator esse que faz o tão polêmico ‘Toy Story 4’ vir agregado de dúvidas se realmente deveria existir. Dúvidas essas que se dissipam com poucos minutos de filme, quando a nostalgia abaixa a poeira e o real significado dessa nova trama aparece. Não era de se esperar menos que um filme coeso e eficaz, porém, menor em escala.

Mesmo com o final fechado do capítulo anterior, ‘Toy Story 4’ é, na verdade, mais um passo importante dessa longa despedida que já se iniciou, motivo pelo qual pode justificar sua existência e necessidade dentro da franquia e, dessa forma, acaba encaixando perfeitamente, ao mesmo tempo que aproveita o retorno (após quase 10 anos!), para explorar e concluir outras pontas soltas que haviam ficado pelo caminho. A trama se inicia na época em que se passa o segundo filme. Além de uma perfeita sequência inicial de ação na chuva, que também serve para mostrar como a qualidade técnica da animação está assombrosa, o começo recapitula a despedida da personagem Betty do grupo e abre caminho para seu retorno mais pra frente (com muito girl power!), quando o cowboy Woody (Tom Hanks) precisa seguir uma jornada particular desse vez, mesmo contando com a ajuda de todos os velhos amigos, o personagem percebe que não se encaixa mais dentro daquele contexto e decide ouvir sua “voz interior”. Esse é, talvez mais do que qualquer outro, um filme sobre o xerife.

Ao seguir por esse caminho, Woody não consegue esquecer o jovem Andy. Mesmo já vivendo com a Bonnie (Emily Hahn) por algum tempo, sua mente sempre o leva de volta ao passado e a saudade sobressai, ainda mais agora que está sendo deixado de lado pela menina e acumula poeira no armário. O personagem, que costumava ser o centro das atenções e o líder da turma, vê sua vida perder o propósito a cada dia que passa. O roteiro é inteligente em colocá-lo nesse questionamento interno, que serve como engrenagem motivadora para mover a trama para frente.

Além disso, a jornada pela sinistra loja de penhores e o parque de diversões trazem novos personagens hilários, como a dupla de ursinhos Patinho e Coelhinho, o dublê Duke Caboom (Keanu Reeves) e a boneca Gabby Gabby, a “vilã”, que exerce papel semelhante ao ursinho Lotso, do terceiro filme. E, claro, há o acréscimo de um garfo de plástico que ganha vida ao ser feito pela Bonnie. O Garfinho (Tony Hale) é um dos personagens centrais e, sem dúvida, um dos melhores alívios cômicos da franquia até então. Por curiosidade, foi animado por um brasileiro, Claudio de Oliveira, que trabalha na Pixar há seis anos. Apesar dessas novas adesões, os personagens clássicos não perdem espaço e, semelhante ao que os irmãos Russo fazem em ‘Vingadores’, todo mundo tem seu pequeno momento de brilhar. Buzz Lightyear (Tim Allen), em especial, tem um papel menor, mas suas cenas são marcantes e divertidas.

O vai e vem de planos mirabolantes e o suspense de suas execuções, marcas registradas da franquia, se mantém fortes, assim como o humor inteligente e espontâneo, que arranca gargalhadas tanto das crianças quanto dos adultos. Dessa vez, a direção está nas mãos de Josh Cooley (DivertidaMente), um bom diretor, que pega com facilidade a essência da franquia, mas faz um filme com cortes mais acelerados que os sutis planos do ‎John Lasseter‎ (afastado da Disney após acusações de assédio sexual). O ritmo, principalmente das cenas de ação, é corrido e levemente confuso, talvez um dos poucos pontos negativos do filme. Além disso, como já citado, a qualidade técnica da animação assusta com tamanho realismo. É possível ver a linha de tecido de algumas roupas, os grãos de poeira no cenário e a água está hiper-realista. Mesmo sempre ampliando sua capacidade de animação a cada novo projeto, nada antes da Pixar esteve tão real, colorido, vivo e detalhado como nesse filme.

Mesmo com tantos atributos positivos, ‘Toy Story 4’ é um filme menor e contido, que funciona tanto para expandir a história para novos rumos, quanto isolado dos demais filmes. Sua existência não altera o que já foi feito, mas também não deixa de agregar valor à franquia. Dessa forma, não consegue ser melhor que os dois primeiros e não possui a carga emocional e melancólica do terceiro, mas ainda assim funciona no que se propõe, emociona, com uma importante despedida, e resgata, mais uma vez, a inocência e as alegrias da infância.

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