É praticamente impossível ter crescido nas décadas de 80, 90 e começo dos anos 2000 e não ser familiarizado com os gibis da Turma da Mônica. Na verdade, o fenômeno nacional (e mundial) persiste até os dias de hoje, desde suas primeiras publicações lá no final dos anos 1950. A obra do cartunista Mauricio de Sousa talvez seja o mais próximo que temos de quadrinhos de editoras como Marvel Comics e DC Comics, sendo parte do imaginário popular e da alfabetização de muitas crianças por mais de meio século. Tal fenômeno não poderia chegar as telonas sem carregar esse peso e essa importância histórica, por conta disso, levou alguns anos e muito vai e vem da produção para finalmente acontecer ‘Turma da Mônica – Laços’, o primeiro live-action dentro desse universo, que consegue resgatar com vigor a nostalgia da infância e apresentar personagens tão adorados, para um novo tipo de público.

Obviamente, a produção não poderia fugir do fator nostálgico, elemento-chave para que o público adulto, que cresceu com a turma do Bairro do Limoeiro, pudesse ter uma identificação com o filme ao levar seus filhos, o público alvo, de fato. O tom é majoritariamente infantil, assim como o humor simples e rotineiro, quase que inocente, exatamente como estabelecido nos gibis, cujas piadas são feitas com sutilezas, jogos de palavras e muita imaginação. Nesse fator, o filme é extremamente satisfatório, ao adaptar aquele mundo já existente para os cinemas. A produção tem carinho e cuidado com cada pequeno detalhe, seja do figurino monocromático e atemporal, dos cortes de cabelo inusitados ou mesmo dos cenários minimalistas das casinhas, tudo está perfeitamente replicado e remete rapidamente aos quadrinhos, é de encher os olhos tamanha perfeição e delicadeza.

Além desses detalhes, o elenco (escolhido a dedo) também consegue expressar os sentimentos e as personalidades dos quatro personagens principais sem ser caricata, tarefa difícil, ainda mais quando se trata de ícones presentes na cultura pop por tantos anos. Apesar do título do filme, é o Cebolinha (perfeitamente interpretado por Kevin Vechiatto) o grande protagonista da trama de ‘Laços’, cuja história principal é bem simplista, baseada no romance homônimo dos quadrinistas Vitor e Lu Cafaggi, que gira em torno do menino encontrar seu cachorrinho Floquinho, que foi sequestrado por uma figura misteriosa que estaria roubando cachorros do Bairro do Limoeiro e, junto com a turma, se envolve em uma jornada em busca de seu amigo de pelo esverdeado.

A jornada também funciona como sua autodescoberta e fortalece os laços de amizade (e até mesmo de amor!) com seus amigos. Talvez esse “falso-protagonista” possa vir a desapontar alguns fãs, mas colocar a Mônica de lado definitivamente agrega valor ao grupo que, sem o carisma da menina, consegue se destacar mais. Aliás, se a personagem já possuía presença forte, a atriz Giulia Benite encanta e rouba a cena com sua Mônica emocional. Por outro lado, Cascão (Gabriel Moreira) e Magali (Laura Rauseo) funcionam mais como alívios cômicos quando o grupo está unido, mesmo que a química entre os quatro seja boa, o roteiro não abre espaço suficiente para que esses dois possam brilhar como os demais, mas ainda assim há boas sequências envolvendo suas “peculiaridades”, como o Cascão fugindo de água e a Magali esfomeada como de costume, até sua clássica melancia mordida encontra um pequeno espaço para aparecer em determinada cena.

No entanto, o roteiro é bem equilibrado, mas possui algumas falhas, em especial na narrativa, que se torna redundante ao longo da trama. Visivelmente a jornada das crianças precisava se alongar por tempo o suficiente para render um longa-metragem e, com isso, a sequência da floresta se torna mais demorada que precisava ser, cansando em certos momentos. Ainda assim, o Louco (Rodrigo Santoro) surge dentro desse contexto e é um dos momentos mais hilários, contudo, mais aleatório e desconexo do restante do filme. Sem falar que a sequência pelo cemitério noturno perdeu a oportunidade de apresentar o Penadinho ou mesmo a Dona Morte, personagens fantasiosos demais para o projeto que busca o máximo possível de realismo. Talvez isso venha a ser um problema no futuro, em uma possível sequência, já que todos os personagens mais “surreais”, como o Jotalhão e o Horácio, aparecem aqui como bichos de pelúcia inanimados, reduzidos a meros easter eggs.

Mesmo com pequenos deslizes por parte do roteiro, a direção de Daniel Rezende (Bingo: O Rei das Manhãs) é brilhante e pontual, seus planos mais intimistas, com muitos detalhes e recortes, lembra uma leitura de quadrinhos. O diretor demonstra plena paixão e conhecimento por esse universo. Outro destaque vai para a direção de fotografia de Azul Serra (Aos Teus Olhos), que traz um ar solar ao filme, fator que contribui ainda mais para a nostalgia e aquela sensação de deitar-se na varanda de casa para ler os gibis no final da tarde.

No fim da sessão, é difícil não se emocionar com tamanho carinho que a produção teve com esse rico universo que marcou a vida de muita gente. ‘Turma da Mônica – Laços’ é um filme despretensioso, contido e muito doce, que entrega tudo que se propõe. É semelhante a abrir um dos gibis mais divertidos e descontraídos e mergulhar em uma prazerosa viagem rumo a infância. Definitivamente, a nova joia do cinema nacional.

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