A linguagem fantástica, presente na literatura de Neil Gaiman, definitivamente não é fácil de ser adaptada para os cinemas e séries. Após alguns fracassos e uma ‘American Gods’ problemática, a Amazon Prime finalmente parece ter entrado em sintonia com o tom do escritor e, diferente de AG, mistura, com muita perfeição, o humor ácido com a fantasia surrealista, em uma obra peculiar, estranha e ousada. Com apenas seis episódios, a série é dinâmica e utiliza o tempo necessário para apresentar os personagens, situar o mundo em que a trama se passa e fazer graça com clássicas passagens bíblicas, interpretadas ao pé da letra aqui. Talvez, por não se levar tão a sério, ‘Good Omens’ (traduzido no Brasil para ‘Belas Maldições’) prende a atenção de forma rápida e, com apenas 15 minutos de puro deboche e ironia, já estabelece o estilo que se seguirá pelos próximos capítulos.

A narrativa enérgica e explicativa do primeiro capítulo se mantém equilibrada até o seu final, algo complicado de ser conquistado, convenhamos. Logo de início, já temos os deslumbres dos efeitos especiais, que estão aceitáveis, e a química entre os protagonistas, vividos por Michael Sheen (o anjo Aziraphale) e David Tennant (o demônio Crowley), ambos perfeitos para seus papeis, provavelmente o maior acerto da série entre todos os outros. O tom contido e constrangido de Sheen se une, com muita maestria, ao ar mais rockstar e rebelde de Tennant, afinal, o grande triunfo da trama e exatamente trabalhar a ambiguidade e como o “bem” e o “mal” se relacionam entre si.

A trama é bem simplória em sua grande maioria e o roteiro é expositivo, sendo diferenciada pela forma como é apresentada, tanto pela voz fantástica de Frances McDormand (Três Anúncios Para Um Crime) como Deus, que narra a história de maneira bem humorada, quanto pela montagem, que auxilia o ritmo e a eficácia das piadas. Nela, o tão aguardado fim dos tempos se aproxima, no entanto, o anjo Aziraphale e o demônio Crowley não estão nada animados e se unem para tentar encontrar o menino anticristo e evitar que o apocalipse, de fato, aconteça. Ou seja, o que facilmente poderia ser mais uma história sobrenatural sobre o fim do mundo, como ‘Supernatural’, por exemplo, se torna original pela abordagem sarcástica e descontraída.

O segundo episódio continua com o humor eficiente e dá uma roupagem criativa aos Cavaleiros do Apocalipse, apresentados como motoqueiros poderosos, em especial, a Guerra, vivida pela talentosa Mireille Enos (The Killing), cuja presença é forte quando está em cena. A produção também ganha impulso, com cenários digitais bem acabados, figurinos marcantes e a fotografia impecável, que expressa a plenitude do céu, a sujeira, podridão e escuridão do inferno e as cores vivas da Terra. Daí por diante, conhecemos o passado dos protagonistas e a importância de sua amizade através dos séculos, inclusive, transita entre diversos períodos históricos em uma longa introdução, que ocupa quase a metade do 3º episódio e serve para que possamos compreender subtramas que serão anexadas a trama principal à partir daí.

A liberdade criativa que a direção teve acaba por ser o elemento fundamental para que a fantasia cafona e o excesso exageros e conveniências do gênero sejam engolidos sem grandes questionamentos, afinal, há sim incoerências na passagem de tempo e momentos “deus ex machina”, além da trama diminuir um pouco o tempo em tela da dupla de protagonistas, para que outros personagens, como a bruxa (vivida pela atriz Adria Arjona) e os caçadores de bruxas modernos (vividos por Jack Whitehall e Michael McKean) e o anjo (de Jon Hamm), possam ter espaço e suas tramas desenvolvidas, visando a conclusão, no entanto, os núcleos são fracos, assim como as cenas envolvendo as crianças, que mira em ‘Stranger Things’, mas acerta mesmo é em uma versão de ‘Ponte para Terabíta’. Ainda assim, a subversão do anticristo ser um menino “comum” e fora do clichê da “criança macabra de cabelos escuros e ausência de expressão”, é um diferencial que vale ressaltar.

Ao som de clássicos do Queen, ‘Good Omens’ subverte as histórias bíblicas e, com muita personalidade e humor ácido, debocha com respeito, sem cair em clichês de tramas apocalípticas. Apesar do clímax ser um pouco abaixo do esperado, mesmo que todas as subtramas se colidem no final e a resolução reverte acontecimentos cruciais, o desfecho é redondinho e dificilmente haverá uma nova temporada, o que torna a série ainda mais única. Então, vale apreciar e se deliciar com a diabólica comédia e seus divinos tons de insanidade.

Comments