Terror de época é algo que, ou funciona e satisfaz, ou desanda completamente. É difícil que haja um meio termo para o subgênero, no entanto, alguns dos filmes mais perturbadores e interessantes habitam exatamente esse contexto, como os recentes ‘A Bruxa’, que se passa no século 17, e o estranho ‘A Maldição da Bruxa’ (Hagazussa), do século 15. A atmosfera do passado, somada a direção de arte e a delicadeza de alguns realizadores, podem tornar a obra uma experiência marcante e angustiante, ainda mais ao retratar crenças de povos antigos, como é o caso de ‘A Lenda de Golem’ (The Golem), baseado na cultura judaica, que começa no século 16 e retrata uma mitologia ainda tão pouco explorada nos cinemas. Isso por si só já desperta curiosidade e a produção, dedicada, busca contar a história com o máximo de detalhes possíveis, algo que ao menos funciona no começo.

A trama se passa 100 anos após uma misteriosa lenda de que o rabino Judah Loew ben Bezalel teria criado uma sinistra criatura para proteger seu povo dos antissemitas, quando, durante um surto de uma peste mortal em um isolado vilarejo, uma mulher precisa salvar sua comunidade de invasores estrangeiros e conjura a antiga entidade, que vem em forma de uma criança, para proteger o lugar, porém, como é de se esperar, a situação sai do controle e o monstrinho deixa um rastro de sangue por onde passa. Apesar de uma história relativamente singular, o folk horror não impressiona tanto quanto outros filmes similares, que são mais densos e complexos, já que parte para o lado da fantasia e prefere entregar uma trama mastigada e de fácil compreensão ao espectador, talvez aí se encontre o grande problema: a ausência de profundidade e excentricidade.

O roteiro até tem pontos altos, principalmente no primeiro ato do filme, que segue como o momento mais intrigante ao apresentar o vilarejo isolado – ao melhor estilo ‘A Vila’ (do diretor M. Night Shyamalan) – seus personagens enigmáticos e prometer que algo no mínimo estranho está por vir, porém, infelizmente perde sua força quando a tal criatura surge em cena, se distanciando do delicioso clima de suspense sobrenatural e se aprofundando na fantasia simplista e genérica, já tão explorada em outras obras, que cai no típico terror de criança amaldiçoada, quando estava prometendo algo grandioso.

Sem dúvida ter escondido a criatura e deixado apenas a atmosfera de omissão no ar teria feito uma diferença positiva e engrandecido a trama, já que a criança Golem não provoca nenhum medo, muito pelo contrário, afasta nossa suspensão da descrença exatamente por ser fantasiosa demais. Mas, como essa é a proposta do filme, ao menos a direção dedicada dos irmãos Doron Paz e Yoav Paz (Jeruzalem) sabe explorar o horror sem se render aos temidos jump scares, fora que a parte técnica – como a direção de fotografia e os figurinos – está impecável para um orçamento tão baixo como este, realmente é visível que foi feito o máximo possível com o pouco que tinham em mãos e o resultado é satisfatório em sua grande maioria.

Ainda assim, o roteiro tem uma barriga no meio e o ritmo da narrativa segue lento demais, com planos longos em excesso, o que contribui para deixá-la maçante em alguns momentos, quando decide explorar subtramas insignificantes (como a do marido infiel) e que não movem a história para frente. O clímax é visualmente bem realizado, mas não entrega toda a emoção que estava prometendo. Apesar dessas falhas, o elenco é bom e está coerente com a proposta, em especial a protagonista vivida pela atriz Hani Furstenberg (Mississippi Murder), que passa a emoção e a verdade necessária em momentos mais densos e dramáticos.

Talvez, se alguns pequenos ajustes no ritmo e no equilíbrio entre o drama e a fantasia fossem feitos, ‘A Lenda de Golem’ facilmente se tornaria uma obra mais acessível ao público estrangeiro e, consequentemente, mais perdurável, já que sua trama é curiosa e diferente do habitual. O gosto não chega a ser amargo, mas a sensação de que algo está faltando afeta drasticamente o nosso envolvimento com a história, que começa forte e vai se perdendo ao longo do caminho fantasioso que decide tomar, até morrer no mais do mesmo.

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