Poucas coisas são mais empolgantes no cinema como o plot twist. Quando bem feito, guarda a chave de virada do filme, o momento que muda o ponto de vista da história e nos coloca em uma situação vulnerável, onde tudo que havíamos acreditado até então, é alterado para uma nova e assustadora perspectiva que ganha forma. Assim como o gênio desse conceito, o diretor M. Night Shyamalan (A Vila, Fragmentado, A Visita) defende, um bom plot twist pode tornar sua obra inesquecível através do tempo, e exatamente isso que o suspense ‘The Perfection’, lançado no Brasil pela Netflix, faz. A narrativa dinâmica é tão bem realizada, que seus pontos de virada surpreendem, sem cair no tão temido clichê.

A trama por si só já é bem original e intrigante, ao mostrar a vida de uma jovem prodígio do violoncelo (vivida pela atriz Allison Williams) que, após perder o posto de “favorita” de seu mentor, desenvolve uma elaborada trama para se vingar e retomar seu lugar de destaque na prestigiada escola de música. Bom, pelo menos é dessa forma que tudo começa, até que novas camadas são inseridas à história e qualquer informação seria um spoiler para dar aqui. De fato, a trama cresce, amplia horizontes e assume novos e surpreendentes rumos conforme conhecemos melhor as personagens e o passado que une suas vidas. O tom inicial, que segue uma vibe estilo ‘Whiplash’, ‘Cisne Negro’ e ‘Possuídos’ (2006), com elementos narrativos e planos típicos e popularizados pelo diretor Quentin Tarantino, assume novos patamares e mescla perfeitamente o humor sádico com a violência extrema e umas pitadas do melhor que o cinema gore pode oferecer.

A dupla de protagonistas são o componente fundamental para fazer toda a loucura funcionar. Sua química convence e envolve. Duas atrizes talentosíssimas, escolhidas a dedo para viver personagens misteriosas e cheias de camadas. Allison Williams mantém sua expressão de boa moça, até que muda para um ar cínico e perverso, que a atriz faz tão bem e que a fez se destacar positivamente em ‘Corra!’. Já Logan Browning (Cara Gente Branca) acrescenta intensidade à sua personagem, com uma atuação sexy, profunda e deliciosamente bem realizada. O roteiro é tão inteligente, que até mesmo as personagens têm suas personalidades mudadas a todo momento, ou seja, é difícil estabelecer confiança, no entanto, é exatamente essa falta de empatia que nos prende tão fortemente à história, com o objetivo de ver até onde elas são capazes de chegar.

Fora isso, a atmosfera de suspense e mistério é bem trabalhada pelo diretor Richard Shepard (Tokyo Project), que acrescenta pequenos detalhes aqui e ali para que possamos achar que sabemos para onde a história está indo, fator essencial para que os plot twists possam funcionar tão bem a cada novo ato. Até mesmo ter a China como plano de fundo é genial e faz com que a bagagem emocional do público e o conhecimento de filmes do gênero possa acrescentar predefinições à trama, como medo e a paranoia de doenças virais e epidemias globais, por exemplo.

E por falar na direção, Shepard sabe exatamente o que tem em mãos e toma liberdade criativa para ousar e surtar em estilosos planos detalhe, sequências agonizantes, nojentas e homenagens a outros grandes diretores, que são amplificados pelo trabalho da montagem. A forma dinâmica como o passado da personagem é apresentado, o efeito de ‘rebobinar’ o filme e a divisão em capítulos ao melhor estilo ‘Kill Bill’, servem para tornar a obra ainda mais singular e peculiar. Outro elemento positivo, fica para a música, inserida como uma espécie de orgasmo às personagens. A alternância entre uma determinada apresentação e cenas de sexo, são narrativamente ricas e visualmente interessantes para a estética modernista da obra. E claro, o contexto LGBTQ+ é coerente e natural dentro da proposta do filme.

Dessa forma, ‘The Perfection’ é uma fantástica surpresa ao fraco catálogo de filmes da Netflix, já que explora diferentes tipos de suspense e satisfaz com muita violência, terror psicológico e momentos perturbadores de paranoia. Um orgasmo sinfônico, feito para uma geração que não tolera abusos de nenhum tipo e que, assim como ‘Corra!’, utiliza a linguagem do horror para mergulhar nas camadas mais obscuras e imperfeitas da maldade humana. De quebra, ainda diverte, surpreende e deixa aquela deliciosa mensagem girl power, dessa vez, em dueto.

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