Revisitar um clássico tão bem inserido na infância de muita gente pode ser uma tarefa complexa e desgastante ao mesmo tempo. Se por um lado, um remake pode atualizar e trazer a trama para os dias de hoje, por outro, se a dose de nostalgia e reciclagem não estiver correta, o filme pode seguir um caminho de amargura. Por sorte, esse não é o caso de ‘Aladdin’, novo live-action da Disney de uma de suas animações mais aclamadas, lançada em 1992, que atravessa o temido vale do desespero para transcender seu original em forma, cores e vivacidade que, além de ser o update adequado para um conto tão peculiar e culturalmente rico, ainda carrega toda a essência mágica conquistada no passado.

Para começo de conversa, fazendo um parâmetro, ‘Aladdin’ acerta em todos os pontos que o ‘Dumbo’, do Tim Burton, falhou e amplia a perspectiva narrativa que ‘Mogli: O Menino Lobo’ desenvolveu, ou seja, corrige erros e engrandece acertos de outras obras similares. Não que o filme sobre o elefante com orelhas enormes seja ruim, mas sua proposta segue para o lado emocional, enquanto ‘Aladdin’ é pretensioso, carismático e divertido. Aliás, põe divertido nisso, já que o forte do roteiro é o humor e a dinâmica cômica entre os personagens, que só funciona pelo fato do elenco ter uma feliz química um com o outro e a direção enérgica e incansável de Guy Ritchie (Sherlock Holmes) saber exatamente o que a trama busca alcançar. A sequência inicial, por exemplo, em que a câmera viaja pela cidade enquanto uma canção é cantada, é de encher os olhos de tão bem realizada, assim como quase todas as cenas de ação, mesmo com muitos cortes, o ritmo não é prejudicado.

E se o humor é a essência da trama, fica para o astro Will Smith a missão de carregar a alma da obra. Seu gênio da lâmpada é simplesmente indispensável e o ator caiu como uma luva ao papel, ao entregar momentos de pura loucura e diversão, com uma atuação extravagante, que acentua seu delicioso e irreverente lado cômico, sendo tão boa quanto a interpretação de Robin Williams no original. A partir do momento que entra em cena, por volta do segundo ato, o filme engrandece junto com ele. Apesar do herói, vivido pelo novato ator Mena Massoud (Open Heart), ser exatamente o que podemos esperar de um protagonista inocente e nobre, tendo seu carisma e time cômico no lugar certo, fica mesmo para Naomi Scott (Power Rangers) o maior destaque do elenco. A atriz brilha como Jasmine, em uma atualização da princesa, mais empoderada e coerente com as novas personagens da Disney, fora que sua voz doce agrada aos ouvidos e emociona, em especial em uma cena musical solo próximo do final do filme, que põe para fora muito talento e veracidade. Ja’Far, vivido por Marwan Kenzari, segue o genérico-clichê-megalomaníaco e ganancioso vilão, sem muito a acrescentar, problema recorrente nos filmes da produtora.

Com a direção ideal, a parte técnica recria, de maneira astuta, a vibe dos anos 90, os cenários coloridos e cheios de vida da animação ao melhor estilo “novelão”, em especial, a direção de fotografia, que mescla as cores quentes do deserto com as cores frias da noite, e os figurinos exuberantes, chamativos e riquíssimos em detalhes, que nos transferem imediatamente para outras épocas e culturas diferentes. Os efeitos especiais do gênio, do macaquinho Abu e do tigre Rajah estão bem superiores aos de algumas cenas em CGI, principalmente quando envolve o voo do tapete mágico, ainda assim, não chega a incomodar. As canções, pontuadas ao longa da trama, não são gratuitas e funcionam tanto para entregar cenas de ação coreografadas, quanto para mover a história para frente, já que há uma barriga no roteiro durante o segundo ato, quando o filme desequilibra no ritmo e se perde com subtramas que dão voltas em torno de nada, algo que muda quando o desfecho chega e a ação, incluindo um pássaro gigante destruindo a cidade, resgata nossa atenção, mesmo o que seja uma artimanha para tornar a história maior e mais épica.

Dessa forma, ‘Aladdin’ transcende o clássico sem desrespeitar sua essência nostálgica, ao mesmo tempo que atualiza a história para os dias de hoje, como é de se esperar. A direção sagaz de Guy Ritchie dá à obra um ritmo ainda mais dinâmico e divertido que o da animação. Will Smith está realmente hilário e a Jasmine de Naomi Scott é puro girl power. O filme é consciente de seu público-alvo e não deseja nada além de atingir com satisfação o coração dos mais entusiasmados, e ‘O Rei Leão’ que se cuide, porque o melhor e mais eficiente live-action da Disney já está entre nós.

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