As adaptações de livros de romance voltados para o público adolescente haviam dado uma queda brusca de uns tempos para cá, porém, talvez tenha sido a Netflix que possivelmente resgatou esse subgênero tão adorado pelos fãs, mas que encontra inúmeros problemas e desafios ao ser transferido para um filme. Apesar de serem duas plataformas diferentes, e uma não precisa, necessariamente, depender da outra, existem histórias realmente cativantes, mas que funcionam melhor nas páginas dos livros, como é o caso de ‘O Sol Também É Uma Estrela’ (The Sun Is Also A Star), adaptação para o cinema do best-seller da autora Nicola Yoon, que colocou um pouco de sua vivência pessoal, sendo ela uma mulher negra, que nasceu na Jamaica e cresceu em Brooklyn, Nova York, na personagem Natasha, protagonista do livro, que possuí uma trama extremante necessária para os dias de hoje, mas que perde o tom ao ser transformado em um filme que não está a sua altura.

Na verdade, até há uma determinação por parte da produção de fazer jus ao material original, já que muitas qualidades podem ser extraídas de momentos importantes do longa, porém, a forma brega como o romance entre os personagens é tratado e a falta de química e carisma dos protagonistas, impedem a trama de decolar e alcançar seu objetivo principal: emocionar através da reflexão sobre a vida ser efêmera. O roteiro, como disse, sabe da importância de uma história sobre imigrantes nos EUA para o momento em que vivemos, mas não consegue transparecer toda a emoção por trás disso, já que foca mais em ressaltar o quanto Nova York é deslumbrante, quase que servindo de comercial sobre viagens, do que se aprofundando nos reais sentimentos de ser deportado de um país, mesmo, claro, que a cidade seja mostrada pelo ponto de vista da protagonista, uma menina Jamaicana que mora nos EUA e não quer voltar sua terra natal.

Ainda assim, esse nem é o maior dos problemas, afinal, roteiro mais enraizado nos clichês de comédia romântica, impossível. Todas as convenções do gênero estão presentes e a trama, pretensiosa, se acha inteligente ao fazer uma sátira ao famoso “deus ex machina”, artifício barato utilizado por filmes para justificar o injustificável, já que citam tal artimanha e se embebedam dela do começo ao fim. É tanto acontecimento aleatório sendo exatamente o que os personagens estavam procurando, que fica difícil ativar a verossimilhança em nossas mentes e, sendo assim, extremamente complicado de se envolver com a história, que utiliza o fator “destino” para fundamentar cada decisão absurdamente preguiçosa do roteiro. Some essas incoerências ao fato de que o protagonista masculino, Daniel (vivido pelo ator Charles Melton), é excessivamente chato, insistente e inconveniente. Talvez, em outro contexto, um perfeito stalker abusivo disfarçado de romântico, que não entende que o não da menina é não. Já a atriz Yara Shahidi tem potencial, carisma e passa verdade em seu olhar aflito e imediatista, mas que se perde dentro do tédio da narrativa lenta.

Aliás, por falar em narrativa, pegamos o romance ‘Antes do Amanhecer’ como exemplo, que parte da mesma premissa de um casal que se apaixona em apenas um dia (ou noite), sendo altamente mais eficaz e apaixonante por saber explorar a naturalidade dos personagens e transformar aquele curto período de tempo em algo sublime, que nos faz não querer que acabe. Então, aqui esse tempo passa e passa de forma enjoada, arrastada e incoerente. Os personagens apenas caminham pela cidade, mesmo que pequenos detalhes sobre suas vidas sejam revelados aos poucos um para o outro, deixa a sensação de repetição e tédio de ver tantas cenas aéreas de Nova York para preencher as lacunas de tempo. O ritmo é problemático para as duas horas intermináveis de filme.

Apesar dos pesares, a parte representativa é eficiente, ao colocar uma atriz negra e um ator asiático nos papeis principais, fruto da mudança que Hollywood está passando atualmente e a autora do livro sabe perfeitamente a necessidade de dar vida a personagens diversificados. Esse fato, somado a algumas cenas de diálogos interessantes, ao tom cômico de certos momentos em que um personagem “explora” a cultura do outro, e ao debate sobre a deportação de imigrantes dos EUA, fazem com que a obra não seja completamente descartável e, talvez, até seja necessária para os jovens que estão crescendo nesse novo mundo onde a diversidade de gênero, sexo, etnia e orientação sexual é uma realidade constante que necessita ser compreendida.

Dessa forma, ‘O Sol Também É Uma Estrela’ certamente deverá agradar os admiradores do livro que serve de base para a trama, mas deixa aquele gosto amargo de ser mais uma adaptação mal sucedida, fraca e que replica o brega e o clichê do gênero. Ainda assim, a representatividade está presente e o debate proposto pelo filme é atual e necessário, só é cansativo ter que assistir uma obra tão monótona em sua narrativa para extrair uma mensagem puramente pertinente.

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