O mórbido sempre despertou grande interesse e curiosidade no espectador. Seja com o turismo macabro ou em produções audiovisuais, um fato é certo: nós temos um estranho fascínio pela morte. No passado, pessoas costumavam se reunir em necrotérios pela Europa para assistir à chegada (e até mesmo a autópsia!) de cadáveres recém falecidos. Todo esse deslumbramento colide exatamente no desejo de ver o funesto com seus próprios olhos, já que a morte foge de nosso controle e caminha no vale do desconhecido. E é essa a deliciosa e certeira subtrama do seriado gaúcho ‘Necrópolis’, que chega à Netflix com 8 episódios e apresenta uma trama curiosa, em que as histórias mais mirabolantes possíveis se desenrolam dentro de um necrotério capenga no centro de Porto Alegre. Essa união tão polarizada de comédia com o fúnebre é, de fato, trabalhada com perfeito equilíbrio. A comédia é a luz e o cenário “sombrio”, o holofote que põe tudo em foco.

Apesar de ter um ar mais amador que algumas produções da plataforma, não desista pela qualidade técnica, pois é no texto inteligente e sagaz que mora a força da série. O roteiro é satírico, sádico e não pensa duas vezes quando o objetivo é mexer com feridas expostas da sociedade, seja rindo de necrofilia, do infame Chupacabra ou do padre que desapareceu após decolar com balões, o que não falta é espaço para fazer piada com polêmicas, porém, inesperadamente a série tem plena consciência de seu texto e busca, na medida do possível, dar alguns “closes certos” dentro de seu humor ácido. Por motivos de comparação, a série é o que seria se ‘The Office’ ou ‘Brooklyn Nine-Nine’ se passassem em um necrotério. A técnica de filmagem, a montagem, os enquadramentos (com bastante zoom in e zoom out, que dão ênfase aos diálogos), a dinâmica dos personagens, fria e sem conexão uns com os outros, e a busca por extrair riso do cotidiano, mostra que o pseudodocumentário americano pode ter servido de referência para o tipo de humor que a produção busca passar. E acredite, funciona que é uma beleza.

O episódio piloto é bem elaborado até, mas não forte o suficiente para que possamos nos envolver com aquela trama. Porém, a partir do segundo episódio, o seriado segue uma vibe ‘Todo Mundo Quase Morto’, do diretor Edgar Wright, referência de um bom “terrir”. A apresentação dos personagens é rápida, divertida e seus dilemas internos, como por exemplo o protagonista que tem pavor de ver um cadáver, são revelados aos poucos e de forma condizente com a proposta. Mistérios são colocados na mesa e as perguntas começam a pipocar, fator crucial para que o “cliffhanger” do final de cada capítulo realmente funcione. Daí, a estranheza toma conta e o absurdo se mescla com o cômico tom de atuação do elenco, ativando o fator “guilty pleasure” e desencadeando em uma instantânea necessidade de assistir um pouco mais.

Entretanto, apesar dos acertos do roteiro (mesmo que force a barra algumas vezes) e na interação dos personagens, há uma barriga que impede o seriado de ser inteiramente eficaz, sendo sua primeira metade muito mais divertida que o restante final, que acaba caindo, de certa forma, na zona de conforto. Porém, alguns personagens, como por exemplo, o administrador Peterson (Eduardo Mendonça), se tornam mais aceitáveis e engraçados conforme a trama avança, enquanto outros, como a Pietra (Joana Kannenberg) e a Rita (Kaya Rodrigues), perdem o ânimo inicial, mesmo a Rita sendo parte fundamental para fazer sátira de seriados investigativos americanos. Já os protagonistas Richard (Rafael Pimenta) e Elisa (Gabriela Poester) são caricatas e hilários do começo ao fim, mas é o ator Thiago Prade que rouba a cena com seu Oséias absurdamente peculiar.

Ou seja, de forma proposital, a temporada de ‘Necrópolis’ é sim tosca e singela em sua produção, mas extremamente rica em seu texto cômico e na proposta criativa e diferenciada de fazer um ‘The Office’ no necrotério. Alimenta deliciosamente nossa atração mórbida pela morte, sem medo de ser sádica, ridícula e absurda. Merece atenção e vale o investimento, sem esperar nada em troca a não ser umas boas gargalhadas, que são arrancadas de nosso inconsciente sem que ao menos tenhamos a certeza dos motivos para estarmos rindo de tanta maluquice reunida. Apesar de não deixar ganchos significativos para uma segunda temporada, certamente vai fazer você querer assistir um pouco mais.

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