Reinventar-se e expandir o universo faz parte da função de uma sequência direta, ou pelo menos é o que se espera de um novo capítulo dentro de uma franquia, ao menos, manter o nível é necessário. E eis que ‘John Wick 3: Parabellum’ consegue de maneira triunfal cumprir esses três aspectos. O novo capítulo da saga de ação apresenta novos horizontes, mantém o nível de expectativa e presta homenagem a si mesmo, tudo isso enquanto realiza alucinantes e desenfreadas cenas de luta minuciosamente elaboradas para entregar um realismo de primeira. Ou seja, a terceira parte não visa apenas dinheiro de espectador, já que é fundamental para dar continuidade à história do protagonista e direcionar os caminhos para o encerramento da franquia, que começou em 2014. Mas será que a ação, elemento fundamental para o filme, compensa a história rasa?

A resposta para essa pergunta está na trama de ‘Parabellum’, que começa exatamente de onde o segundo capítulo parou, com John (Keanu Reeves) sendo caçado por todos os assassinos após desrespeitar a regra de não matar dentro do perímetro do Hotel Continental. Todo o primeiro ato do filme se dedica a mostrar sua fuga desenfreada para tentar sobreviver e conclui algumas pontas soltas deixadas anteriormente. O roteiro em si não é tão inventivo, já que a jornada de Wick é relativamente simples, porém, é exatamente na ação que o filme ganha força e prende a atenção, alongando sua jornada, mesmo que se repetindo aqui e ali. E com tudo já estabelecido, o segundo ato decola e apresenta novos cenários, como Marrocos, e novos personagens, como Sofia (Halle Berry), uma versão feminina de Wick, que rouba a cena com o talento de Berry. Daí por diante, o motor é ligado e não para mais. A trama trabalha com excelência nossa expectativa até o magnifico desfecho.

Enquanto a ação é a atração principal, Keanu Reeves é a alma que aquece a narrativa. O ator, que já passou dos 50 anos, talvez esteja em seu auge de carisma e entrega seu melhor John Wick até então. Dessa vez, o personagem está mais “badass” do nunca e seguro de si, mas também encontra espaço para mostrar suas fraquezas e dramas do passado, nada que atrapalhe seu estilo de luta quase sobre-humano. Aliás, é nesse aspecto que o roteiro encontra suas falhas. Wick apanha e luta do começo ao fim, se machucando pouquíssimas vezes e, mesmo partindo do princípio de que ele é o melhor no que faz e essa é a proposta do filme, a trama dá um ar de super-herói ao personagem, que o deixa quase que imortal e todos seus inimigos fáceis. Esse fato atrapalha a construção do suspense nas cenas de luta e a nossa suspensão da descrença, que faz com que não nos importemos tanto, já que sabemos que ele não vai morrer ou se ferir gravemente no fim das contas. A falta de emoção e empatia pela história e seus personagens também estão presentes, apenas a sede de sangue e a violência extrema de fato contam para mover a narrativa.

Falhas à parte, a direção habilidosa de Chad Stahelski contribui para tornar a ação ainda mais épica que anteriormente, já que o diretor sabe dirigir uma cena de luta com perfeição, mesmo as mais escuras e confusas são bem elaboradas e enquadradas, algo que a direção de fotografia neon e sombria também ajuda. As perseguições noturnas, seja de moto ou a cavalo (sim, Wick usa um cavalo dessa vez, e a sequência de ação é fantástica!), e as luzes da cidade na chuva, são estilosas por si só e um deleite visual que dá identidade ao filme. Apesar disso, os demais personagens servem apenas de base para a jornada principal. Laurence Fishburne tem um papel menor que anteriormente, assim como Ian McShane, mas Lance Reddick ganha destaque e entrega boas cenas de ação. Asia Kate Dillon vive a juíza impiedosa e sem expressão. Anjelica Huston, com seu típico magnetismo, se torna uma adição interessante ao explorar o passado do protagonista, e Mark Dacascos funciona com o alívio cômico, além de ter uma boa química com Reeves.

Do começo ao fim, ‘John Wick 3: Parabellum’ é pura adrenalina extraída da essência de um bom filme de ação, que sabe utilizar todos os elementos a seu favor para construir cenas grandiosas de luta. Infelizmente, não espere por uma história elaborada como no começo de tudo, mas aprecie duas horas e meia do mais genuíno e eletrizante caos estimulante. Não é apenas o melhor John Wick até aqui, como também é o filme de ação do ano, sem dúvida.

Comments