Fazer um bom e necessário remake consiste em resgatar uma história, que funciona nos cinemas, mas que ficou perdida no tempo, e trazer para os dias atuais, de maneira que não envergonhe a obra original e possa também acrescentar elementos novos para que sua revitalização seja justificável. Certo? Sendo assim, recentemente, o remake de ‘It: A Coisa’ pode servir de exemplo bem sucedido dentro desse contexto, afinal, filmes de terror são os que mais ganham versões ao longo dos anos e coincidentemente, os que menos funcionam como deveriam, como é o caso de ‘Cemitério Maldito’ (Pet Sematary), obra que se se tornou um clássico moderno do terror, tanto na literatura quanto nos cinemas, mas que sua nova versão parece mais se preocupar em recriar, de maneira similar, o original, do que apresentar novidades e expandir o universo. Talvez seja um erro, mas talvez seja a zona de conforto que a produção escolheu seguir com medo de manchar a imagem de um clássico.

A falta de coragem é evidente e um desperdício de investimento, já que a trama é tão obscura, que renderia sequências perturbadoras de sustos, típicas da mente criativa de Stephen King, autor do livro que deu origem à ambos os filmes. No entanto, por se manter na linha do original, o filme não é um total desagrado, desde que a sensação de “déjà-vu” não atrapalhe a experiência, há bons elementos que funcionam dentro do contexto proposto e o clima de suspense estabelecido é satisfatório boa parte do tempo, já que acompanhamos a jornada de uma típica família americana que se muda para um nova casa as margens de uma estrada perigosa e, na tentativa de ter mais sossego e conforto, acabam se envolvendo com o mundo dos mortos, quando uma das crianças morre em um trágico acidente e seu pai descobre um místico cemitério que a pode trazer de volta à vida.

De certa forma, até há pequenas mudanças e liberdades criativas em relação ao livro (como ser a menina quem morre dessa vez, por exemplo), mas nada que seja relativamente importante para alterar o curso da história. O roteiro guarda algumas revelações para o final, mas logo conseguimos prever os caminhos que aquela trama vai seguir, sem grandes surpresas ou reviravoltas inesperadas, mesmo que o desfecho seja novo (e melhor que o original!), ao menos isso. A direção é da dupla Kevin Kölsch e Dennis Widmyer (de ‘Starry Eyes’), que juntos até buscam planos mais elaborados, nas sequências de terror, e tentam extrair o máximo das sombras e do escuro das cenas, mas que não saem do básico. A grande maioria dos sustos são clichês, fracos e previsíveis, sem contar que toda a subtrama da mãe e a irmã doente, também presente no original, não agrega nada à trama principal, servindo apenas de justificativas para o uso desenfreado de “jump scares”, que preenchem o vazio monótono da relação do elenco. Jason Clarke (A Maldição da Casa Winchester) até entrega um personagem perturbado e carismático, mas que não há química nenhuma com a atriz Amy Seimetz (Cores do Destino). Dessa forma, o destaque mesmo vai para a jovem Jeté Laurence (The Ranger), que rouba a cena em sua versão “malvada”.

Por trás da máscara de horror e os sustos mal construídos, o filme lida com o luto e as relações humanas após a perda de alguém querido. Todos os personagens são estranhos e carregam consigo um sentimento de melancolia, pouco explorado, mas presente, em especial o personagem Jud, vivido pelo ator John Lithgow (Interestelar). Essa  atmosfera fúnebre e quase gótica é atraente e serve de alicerce para toda a trama, ao menos funciona e nos permite nos envolver com a família e suas angústias, algo que o original trabalhou muito superficialmente. É um filme sobre a morte e nisso o roteiro acerta nas escolhas. Aliás, outro acerto bem-vindo fica por conta do gato Churchill, mais misterioso que o macabro felino do original.

Levando-se em consideração esses aspectos, ‘Cemitério Maldito’ não desagrada os fãs do original, mas certamente não conquistará novos. O fator “clássico instantâneo” não está presente, infelizmente, e o terror, mesmo com uma atmosfera macabra e uma discussão pertinente sobre a morte, se vê preso na tentativa de replicar o que deu certo no passado e se esquece que os tempos são outros. Agora o nível subiu e precisa muito de mais substância do que um gato sinistro para assustar de verdade. Às vezes, estar morto é melhor e, às vezes, um remake deve pensar duas vezes se necessita existir.

Dica: Não saia antes de ouvir a fantástica canção ‘Pet Sematary’, do Ramones, nos créditos finais!

Comments