Para começo de conversa, o longa ‘Amanda’ consegue um feito interessante: unir a delicada e calorosa comédia romântica francesa, com o drama reflexivo de um país que está traumatizada após diversos ataques terroristas nos últimos anos. Essa sensação de cura e a busca pela cicatrização da dor, é o que faz nascer a trama do filme e suas nuances entre comédia, romance e drama propriamente dito. Ao menos em sua primeira metade, a obra é singela, sensitiva e parece caminhar para um lugar comum, no entanto, a mudança brusca acontece com um gráfico atentado terrorista que muda a vida e a jornada dos personagens e, consequentemente, o tom do filme, fato que o deixa ainda mais cativante.

Na trama, o solitário e imaturo protagonista, vivido pelo talentoso ator em ascensão, Vincent Lacoste (de ‘Conquistar, Amar e Viver Intensamente’) vive adiando tomar grandes decisões em sua vida pacata de podador de árvores em uma pequena cidade, no entanto, um trágico evento do destino altera sua vida e o faz ter que criar sua única sobrinha Amanda (Isaure Multrier), de apenas sete anos. Essa união de mundos tão diferentes faz com que um aprenda com o outro a lidar com sentimentos como perda, saudade e solidão. O roteiro delicado explora a fundo suas rotinas monótonas e os caminhos que são levados após o atentado, assim como a sensação crescente de medo que toma conta de toda a França.

Fora o fato de que o filme foge do típico clichê americano e não vilaniza o Estado Islâmico, o drama familiar é o maior acerto. A interação dos personagens é a força motivadora que carrega toda a narrativa. A jovem menina é silenciosa, com um olhar que expressa mil palavras de uma vez, já David é carismático, simpático e mantém sua presença forte. Dois bons exemplos de personagens bem construídos, que instantaneamente desenvolvemos uma conexão emocional e passamos a nos importar com suas decisões, fato raro nos dias de hoje, em uma cinema cada vez mais comercial e menos emocional, não que esses dois elementos não possam conviver em harmonia, mas que raramente funcionam como em filmes menores, cuja intensidade consiste em seus protagonistas.

Mas é preciso ter paciência, a trama segue um ritmo lento que pode enjoar, mas acaba sendo um reflexo do próprio processo de cura dos personagens, sendo mais dinâmico e eficaz da metade para o final. A direção do francês Mikhaël Hers (de ‘This Summer Feeling’) é eficiente e sensível, explora os personagens com planos longos, que os permite improvisar, além de muita câmera na mão. A direção de fotografia acentua o clima de tristeza, com tons pasteis e escala de cinza, algo que causa uma certa estranheza, já que estamos acostumados a ver a França em cores vivas em tantas outras obras. E o elenco, claro, entrega exatamente o que a trama propõe: emoção, sutileza e carisma.

Com toda essa carga emocional, ‘Amanda’ é um drama familiar sobre consequências, que nos ajuda a entender o processo de cura de algumas perdas permanentes e caminha entre o romance e a tristeza, enquanto nos presenteia com uma deliciosa e cuidadosa subtrama de uma França ainda abalada pelo terrorismo.

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