A clássica aventura da criança amorosa e seu cachorro sempre é recontada e reinventada nos cinemas, porém, todas as tramas, mesmo as mais mirabolantes, partem do princípio do carisma animal para se sustentarem. Ou seja, se o fator fofura estiver ligado, seja o animal que for, logo terá a aceitação e a atenção do espectador. E é esse o caso de ‘A Menina e o Leão’ (Mia and the White Lion), uma aventura ao melhor estilo “Sessão da Tarde”, que tenta ao máximo se segurar na atratividade animal para montar uma trama que aparentemente parece até interessante, mas que se desdobra para extrair o mínimo de novidade dentro do subgênero. Basta então trocar o cachorro falante por um leão real que temos, passo a passo, a mesma jornada de tantos outros roteiros que seguiram os mesmos caminhos narrativos.

Contudo, por um lado, um mérito é evidente: o uso de animais reais e não o tão utilizado CGI valoriza a produção e a diferencia de muitas outras. Afinal, a computação gráfica está tão enraizada em nossas vidas, que às vezes nos esquecemos que existem animais selvagens reais. Ao mesmo tempo, o uso de leões de verdade também aumenta a tensão estabelecida pelo filme e, conforme o animal cresce, junto com ele também cresce o perigo eminente e a necessidade de separá-lo da família e da menina Mia, que o criou, vivida pela atriz Daniah De Villiers, e conhece o raro leão branco Charlie aos 10 anos de idade e desenvolve uma forte amizade com o animal. E como se pode imaginar, a trama parte desse batido princípio de que ambos deverão se separar. Conflito estabelecido, e o longa não tem praticamente mais nada para apresentar senão isso.

Mesmo com as paisagens deslumbrantes e a excelente direção de fotografia alaranjada, que capta esse espírito solar da África, todo o restante é precário e inconsistente. As atuações são forçadas e navegam entre aceitáveis e fracas (e olha que conta com a atriz Mélanie Laurent, de ‘Bastardos Inglórios’). A protagonista é a única que passa algum comprometimento, mas também quando já está em sua fase adulta. A direção, do francês Gilles de Maistre, até tenta, mas não consegue ornamentar tamanha falta de emoção e, se por um lado o uso de animais reais passa a sensação de perigo, por outro, falta um olhar mais delicado e doce da direção para torná-los carismáticos. Além disso, o ritmo acelerado e o excesso de cortes da montagem prejudicam o envolvimento com os personagens, já que toda a produção mais parece um amontoado de cenas aleatórias do Discovery Channel, colocadas juntas na tentativa de fazer algum sentido cabível. A vibe “filme para TV” pesa e muito nesse momento.

No entanto, nas camadas mais profundas do roteiro há um debate sobre respeitar e valorizar os animais, uma conscientização sobre a prática repulsiva que é a caça de animais selvagens, mesmo que a própria produção do filme tenha optado por gravar com leões de cativeiro e se envolvido com criadores malvistos por ativistas que defendem os direitos dos animais. Polêmicas à parte, ‘A Menina e o Leão’ é despretensioso, singelo e sincero no que busca passar, sendo ou não eficaz, certamente encontrará seu público caso chegue à Netflix ou mesmo ao Disney Channel, mas para o cinema, ainda falta sustância e uma dose a mais de emoção e carisma. Os ingressos estão muito caros para serem gastos com uma trama problemática, que dá voltas em si mesma e não acrescenta nada de novo ao clássico subgênero da criança e seu cachorro, ou nesse caso, leão.

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