Sabe aquela surpresa agradável em forma de série de TV, que surge do nada e logo rouba seu coração de uma maneira sem volta? Então, esse é o caso da doce ‘Special’, drama com comédia da Netflix, que explora as dificuldades e as alegrias de ser um homem gay e ter uma deficiência, ao mesmo tempo em que precisa lidar com o mundo complexo, com as expectativas ao seu redor e com a vida adulta batendo em sua porta. Com o maravilhoso formato de 8 episódios de, no máximo, 16 minutos cada um, a fluidez é gloriosa e a temporada, como um todo, é consumida sem interrupções. Mas não se engane, apesar do humor pontual e do ar cômico que percorre toda a narrativa, há uma importante e profunda reflexão sobre ser diferente em um mundo padronizado.

Nesse contexto, o sol de ‘Special’ é o ator e escritor Ryan O’Connell, que interpreta brilhantemente a si mesmo na série. Após lidar com suas dificuldades e limitações com bom humor, a Netflix resolveu levar sua peculiar vida, já que possui paralisia cerebral, fora que é gay e começa a sair do armário, para o mundo audiovisual. A decisão não poderia ter sido mais certa e bem-vinda, da mesma forma que o clima leve, divertido e fofo do protagonista encontra o tom certo dentro da história, que utiliza o humor tanto para conquistar quanto para expressar e fixar mensagens positivas sobre amor próprio e aceitação. A mistura de carisma, inocência e sarcasmo que O’Connell tem em seu olhar é hipnotizante e muito sincera. Além disso, a atriz Punam Patel, que vive sua melhor amiga, também rouba a cena com seu excelente time cômico e entrega momentos de pura reflexão e magnetismo.

Já a trama, começa de forma dinâmica, sem tempo para longas tomadas, já que a duração de cada capítulo é curta, ou seja, os personagens são apresentados de forma ligeira, sem barrigas e enrolações. Com poucas palavras e olhares, já é possível compreender a função de cada um dentro do contexto. Quando essa dificuldade sai do caminho, a narrativa encontra seu tom e caminha, sempre movendo a história para frente, rumo à apresentar as sutilizas do dia-a-dia de Ryan, desde suas dificuldades em se relacionar com outros homens por ter vergonha de si mesmo, até sua relação com a mãe, vivida com vigor pela atriz Jessica Hecht (Friends), outro grande destaque positivo. Ao fim do primeiro episódio, já é possível compreender quem sãos os personagens e como suas subtramas servirão de base para a história de Ryan, assim como a vibe que a série seguirá, optando por tratar temas pesados e complexos com suavidade e transparência. Mais eficaz que isso, impossível.

O ritmo segue animado por todos os capítulos, alguns dedicados mais a relação mãe e filho e outros ao trabalho de Ryan dentro da redação do site. Porém, a trama consegue encaixar, de maneira coesa, todos os elementos da jornada do protagonista, que começa tímido e se descobre forte e independente conforme percebe que sair da zona de conforto só depende de si mesmo. Outro acerto é como a série lida com a homossexualidade do protagonista, que já é aceita entre seus amigos e sua família, tratada de forma natural (como deve ser!), afinal, assim como sua deficiência, sua orientação sexual faz parte de si e a trama opta por mostrar apenas as dificuldades que é ser “diferente” em um mundo padronizado, já que deixa de lado maiores diálogos e debates sobre sair do armário e lutar para ser aceito na comunidade, para focar na naturalidade que é ser gay. Um delicioso e automático ponto de vista sobre as questões LGBTQ+.

Dessa forma, ‘Special’ é agradável, doce, representativa e flui tão naturalmente em sua narrativa simplista quanto deveria ser a aceitação do mundo para um jovem gay com paralisia cerebral. Ryan O’Connell esbanja carisma, inocência e se mostra um comediante em potencial. A prazerosa surpresa ainda busca encontrar seu formato adequado, com sorte pode retornar para mais uma temporada, mas já é uma das melhores séries da Netflix desse ano e quase uma obrigação de ser assistida.

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