No cinema existe algo chamado “filmes parecidos, mas não iguais” que, de maneira popular, são aquelas obras que lembram em excessos outros filmes (que geralmente tem orçamentos maiores), e/ou que mesclam elementos de mais de um filme para entregar uma enorme mistura de tudo que já foi realizado anteriormente, de forma descarada e sem a menor vergonha de estar reproduzindo histórias já batidas ao público. E é dentro desse contexto tenebroso que nasce o suspense ‘The Silence’, uma aposta alta da Netflix, já que o elenco é caro, mas que soa mais como uma versão barata e sem muita criatividade de longas como ‘Bird Box’ e ‘Um Lugar Silencioso’. Mas não se engane, a comparação com esses dois filmes serve apenas no contexto da história, já que a qualidade é absurdamente inferior.

Inicialmente, a trama pode até parecer criativa, ao mostrar criaturas adormecidas por milhares de anos dentro de cavernas, serem libertadas e, finalmente, causarem a extinção da raça humana. Mas logo toda a história mergulha no lugar comum, replicando um a um clichês absurdos e caminhos narrativos que já foram seguidos por tantos outros filmes que tratam sobre o mesmo assunto. A sensação que se estabelece durante toda a produção, é que já vimos aquilo e que sabemos exatamente como a mente dos personagens vai funcionar dentro daquele contexto apocalíptico onde, convenientemente, a família que guia a trama sabe falar língua de sinais dentro de um mundo onde não se pode fazer nenhum som. Se isso já não é sorte o bastante, então some ao fato de que, de forma rápida, eles compreendem como as criaturas funcionam e começam a agir e fugir como verdadeiros sobreviventes do fim do mundo. Em menos de uma noite, todos já estão prontos para enfrentar o que der e vier.

O roteiro segue o padrão: precisamos achar um lugar seguro/agora precisamos sair desse lugar seguro para buscar comidas ou remédios. Nada além disso. Não que esses elementos motivadores de ação sejam ruins, apesar de replicados em excesso, mas aqui são tratados com tamanho desdém e falta de criatividade que mais parece um episódio fraco de ‘The Walking Dead’, no qual toda a carga dramática inexistente é colocada sobre os ombros dos sobreviventes, que se arriscam nas ruas para salvar seus amigos e familiares e retornam com algum elemento surpresa que vai alterar o desfecho da história. Aliás, até mesmo o “vilão” humano (vivido pelo ator Billy MacLellan) é tão sem carisma e propósito, que sua ausência não faria a menor diferença, na verdade, até melhor seria se fosse assim, menos um personagem enjoado para tomar o tempo, já acelerado, do filme.

O mais doloroso, no entanto, é que o elenco é composto por bons atores e atrizes, como Stanley Tucci (O Diabo Veste Prada), Miranda Otto e Kiernan Shipka, que já trabalham juntas em ‘O Mundo Sombrio de Sabrina’, porém, apesar de uma química boa entre a família, todos seguem o que o roteiro propõe e não encontram espaço para improvisar e ousar, infelizmente, um desperdício de bons talentos em uma obra que não valoriza seus personagens. Fora isso, os efeitos especiais também variam entre toscos, durante o dia, e até bem realizados quando as sequências de ação são noturnas, até mesmo a direção de fotografia passa uma sensação de que faltou verba e visão criativa, claro, para se destacar (e olha que o diretor do filme é mais famoso por ser diretor de fotografia!). Se a história começa de maneira dinâmica no primeiro ato, da metade para o final perde força e morre lentamente até o seu clímax, uma cena até bem realizada na chuva, mas que não tem o menor impacto dramático, já que paramos de nos importar com os personagens faz algum tempo.

Mesmo com tantos defeitos, o suspense até se esforça e consegue segurar alguns momentos de tensão, exatamente por não poder fazer nenhum tipo de barulho, algo que já foi explorado (de maneira satisfatória) em ‘Um Lugar Silencioso’. Além disso, a direção de John R. Leonetti (do primeiro ‘Annabelle’) é astuta e se utiliza de muito slow motion, junto com a montagem, para dar estilo, ou seja, as cenas de ação, com as criaturas, são boas e lembram também, mesmo que distante, os ataques dos dinossauros em ‘Jurassic Park’, que Steven Spielberg me perdoe por isso. Já que a história é fraca e sem criatividade, pelo menos é bem apresentada e relativamente refinada de maneira visual.

Sendo assim, ‘The Silence’ mira nos bons filmes de suspense pós-apocalípticos, mas acerta mesmo é narrativa clichê e sem vida de episódio de séries como ‘The Walking Dead’. É desajeitado, sem ritmo, apresenta uma história com forte potencial, mas que não sabe nem ao menos ousar e/ou se arriscar. Não assusta, não empolga e não convence, um desperdício pavoroso de um bom elenco. O primo humilde de ‘Um Lugar Silencioso’ não chega nem próximo da tensão que mexer com o silêncio pode causar.

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