De fato, Brie Larson está em alta, mesmo já tendo conquistado um Oscar pelo delicado ‘O Quarto de Jack’, a atriz só está se destacando agora em Hollywood, após estrelar o primeiro filme do Marvel Studios protagonizado por uma mulher, ‘Capitã Marvel’ e roubar a cena nos trailers de ‘Vingadores: Ultimato’. Para aproveitar o embalo, Larson dirige seu primeiro filme, curiosamente para a Netflix, que possui a fama de dar maior liberdade aos artistas, e põe liberdade nisso, já que o drama com toques de humor, ‘Loja de Unicórnios’ (Unicorn Store), é puramente livre para expressar suas ações e a atriz, que também protagoniza, abraça com força a oportunidade de criar dentro de seu trabalho mais excêntrico até hoje. No entanto, não é um filme para todos os públicos, fora que se dividir entre dirigir e atuar prejudica o andamento do longa e sua intenção narrativa, se perdendo plenamente dentro de suas próprias fantasias.

A trama é cheia de camadas e mostra a vida da jovem Kit (Brie Larson), que retorna para morar com seus pais, ao mesmo tempo em que precisa compreender o que é ser adulta e independente enquanto busca seus sonhos e uma vida profissional bem-sucedida, no entanto, ao receber um convite inusitado de um misterioso homem chamado ‘O Vendedor’ (Samuel L. Jackson), Kit se vê tendo que escolher se deseja ganhar e cuidar de um suposto Unicórnio, que será fornecido à ela pela tal loja mágica. Dessa forma metafórica, o longa caminha por uma jornada de auto descoberta entre o que é fantasia e o que é o mundo real. E esse é seu ponto forte, a reflexão que provoca sobre aceitar amadurecer e lidar com os problemas de frente, mesmo que ainda haja inocência e infantilidade no coração.

Mesmo com todas as reflexões, o roteiro deixa a sensação de que não tem muito mais a dizer além disso ou que não sabe se expressar dentro de sua proposta alegórica, não sendo dinâmico e se perdendo entre a fantasia e a comédia, sem ser exitoso em algum dos gêneros. A direção de Larson é fraca e simplista demais, algo que contribui e mergulha de cabeça nessas falhas narrativas, se tornando ainda mais arrastado e lento durante todo o desinteressante primeiro ato, com cenas picotadas e isoladas entre si, que até formam a história principal, mas causam certa estranheza por não se comunicarem. Somados a esses deslizes, Brie Larson está enfática e caricata como de costume, mas há um certo conforto da atriz no papel, com um misto de carisma e inocência (e um pouco de mimo!), que convence e satisfaz no fim das contas. Apesar do curto espaço, Samuel L. Jackson é magnético, extrovertido e entrega a magia que seu personagem busca. A química entre os dois, que está se repetindo pela terceira vez (sendo a primeira em ‘Kong: Ilha da Caveira’ e a segunda em ‘Capitã Marvel’) é completamente satisfatória e sedutora.

Quando se coloca de lado a parte surreal da trama e se aprofunda na realidade, há delicadezas sutis e críticas sociais importantes sobre machismo, assédio no trabalho e a busca incessante pela felicidade. Assuntos que estão em alta nos cinemas de hoje e que sempre são bem-vindos, mesmo que tratados com ilusão e humor. Até mesmo o aspirador de pó, elemento presente no filme, serve perfeitamente como uma alegoria sobre “limpar” e se livrar de seus problemas e obrigações quando precisa lidar com a vida adulta. A direção de arte e o figurino também acertam dentro da proposta. Excêntricos, repletos de brilhos e cores vivas, que expressam a personalidade dos personagens, em especial o lado infantil da protagonista.

Sendo assim, ‘Loja de Unicórnios’ não acerta o tom entre a fantasia e o humor e entrega um drama fraco sobre amadurecimento. Um “coming-of-age” tão doce que chega a ser enjoativo. Nem mesmo o carisma de Brie Larson segura nosso interesse, no entanto, se há algo que pode ser salvo desse arco-íris sem cores, são suas metáforas que exploram e instigam nossas fantasias e magias internas dentro da vida adulta, no demais, mais um desperdício de potencial da Netflix.

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