Após um primeiro ano conturbado, repleto de descobertas e reviravoltas, Sabrina Spellman retorna para uma nova fase de sua vida, depois ter assinado o Livro das Trevas e ter entregue sua alma ao Diabo, fator esse que trouxa para a jovem um ar mais adulto e mais perverso que anteriormente. Esse marco divide a primeira da segunda parte de ‘O Mundo Sombrio de Sabrina’ (Chilling Adventures of Sabrina), que se inicia já dentro do contexto dessa nova versão da protagonista, mais destemida em seus novos desafios, mais decidida sobre o que quer para sua vida adulta, porém, menos interessante do que se poderia esperar, já que o roteiro, como um todo, caminha para lugares seguros demais em relação as novidades e ousadias da primeira parte, e cai em histórias redundantes e menos instigadoras. No entanto, há momentos interessantes e elementos novos que ajudam a caminhada não ser tão tediosa assim.

A sensação que fica nos primeiros episódios da nova temporada, é que a trama deseja sim chegar do ponto A para o B, utilizando essa evolução da protagonista para estimular novas histórias ainda mais macabras, porém, há poucos elementos que movem a narrativa da temporada para frente, sendo distribuídos apenas no final de cada episódio. Os famosos “cliffhangers” são lançados à exaustão aqui, o que provoca uma barriga nas histórias individuais dos capítulos. Muita coisa acontece do primeiro ao quinto episódio, no entanto, poucos elementos, de fato, são usados para mover a trama para frente. Os roteiros preguiçosos focam em datas comemorativas e eventos curiosos do mundo sombrio, como o dia do “acasalamento” e uma competição na mesma vibe de ‘Harry Potter e o Cálice de Fogo’, para ver quem será o novo escolhido do Padre Blackwood (Richard Coyle), como atmosfera para que os personagens tenham suas histórias desenvolvidas. Algumas até funcionam e entretém, mas outros eventos são completamente desestimulantes e quebram o ritmo da trama, principalmente quando envolve a Madam Satan, vivida pela atriz Michelle Gomez, a própria “deus ex machina” em forma de personagem, que sempre chega para alterar os acontecimentos da maneira mais simples possível, mesmo que seu arco dramático evolua significativamente da metade para o final, sua presença na história não sabe para qual caminho seguir.

Apesar disso, o discurso social e ideológico que a série começou a desenvolver se mantém forte, já que a história desse novo ano dá maior destaque para o ator Lachlan Watson e sua trama sobre descoberta e aceitação como um homem transsexual. Susie muda seu nome e seu visual ao longo da jornada, em um dos momentos mais cativantes de toda a série. Fora que a própria Sabrina se mantém empoderada e luta para extinguir o sexismo que existe dentro da escola de bruxaria, pautando mais profundamente ideologias feministas, que tanto foi essencial para a construção da personagem no primeiro ano. Outro grande acerto fica por conta do tom mais sombrio e obscuro, quase envolto em uma atmosfera de terror, principalmente no quarto episódio, o mais divertido da primeira metade. Nessa nova fase, Sabrina abandona seu típico visual com cores vermelhas e assume o preto básico, que ressalta essa transição da inocência e do desejo, para o trevoso e o adulto. Aliás, toda a direção de fotografia segue esse embalo e apresenta cenários mais lúgubres e pesados em relação a iluminação sóbria da primeira temporada, porém, em algumas cenas, a iluminação é tão escura, que os atores estão amarelos por conta da maquiagem em contraste com a luz.

Enquanto alguns coadjuvantes ganham maior destaque, os protagonistas perdem força na história. Personagens interessantíssimos como Ambrose (Chance Perdomo), Prudence (Tati Gabrielle) e Zelda (Miranda Otto) são deixados de lado pelo roteiro e só ganham alguma importância já nos últimos episódios. Suas histórias não são direcionadas para lugar nenhum, inclusive, regridem em relação ao que foi apresentado no primeiro ano. Infelizmente. Já o triangulo amoroso entre Nicholas (Gavin Leatherwood), Harvey (Ross Lynch) e Sabrina (Kiernan Shipka) ganha uma nova adição que promete mexer nas estruturas e intensificar o estilo à la ‘A Saga Crepúsculo: Lua Nova’, já que um dos personagens, o amigo fiel da escola, acaba ganhando maior destaque na vida da protagonista com a ausência do namorado. A relação entre os três consegue entregar bons conflitos, mas falta intensidade para fugir do previsível.

E só então no quinto episódio, após longos (em duração mesmo!) e arrastados capítulos, que a trama parece apresentar alguns elementos interessantes que modificam a mesmice e empolgam para um final de temporada cheio de ação e acontecimentos violentos, apesar disso, a sensação de perigo crescente nos esgana a cada momento, afinal, mesmo que algum personagem morra ou alguma magia das trevas seja feita, não há nada que não possa ser revertido com algum feitiço da Tia Hilda (Lucy Davis), por exemplo, anulando qualquer credibilidade e emoção com possíveis mortes e despedidas. Até mesmo o grande vilão da série se torna mais fraco quando a luta contra ele começa. Artimanha preguiçosa e temerosa do roteiro, que não se arrisca e não entrega o que promete. Ainda assim, mesmo com essa falta de coragem, o final da temporada coloca a heroína para deter o apocalipse e a versão “humana” do Lorde das Trevas (Luke Cook), entre outras criaturas sinistras, que expande o universo da série e leva para um próximo ano, que promete ser ainda mais obscuro e assustador.

De modo geral, o segundo ano de ‘O Mundo Sombrio de Sabrina’ mantém a essência soturna, explorada no começo da história, mas perde a força, caminha para lugares previsíveis e deixa de lado personagens importantes, que foram responsáveis por manter a série em um alto nível. Apesar disso, mesmo com problemas no roteiro, os novos episódios continuam a trama em um nível mais adulto e tenebroso e expande o universo das Bruxas e criaturas mágicas. Fica a torcida para que seus caminhos se alinhem novamente e a série da Netflix volte a ser tão icônica quanto as ricas e divertidas histórias do mundo de Sabrina, já que a próxima temporada promete uma viagem ao inferno, literalmente.

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