Um herói inocente, com visual colorido, em um filme recheado de piadas com um tom pastelão de sessão da tarde. Poderia ser muito bem a descrição de qualquer lançamento da Marvel, mas é como Shazam! chega aos cinemas, mostrando que a Warner finalmente parece ter aceitado o tom que cada herói merece e que daqui em diante teremos bem mais pluralidade no modo como os quadrinhos chegam às telonas.

Desde que perdeu sua mãe em um parque de diversões, Billy Batson cresceu fugindo de orfanatos e lares adotivos em busca de sua família verdadeira. Usando a rebeldia como forma de se isolar das pessoas que tentavam acolhê-lo, o garoto acaba em um lar de pessoas dispostas a receber crianças de todos os tipos. Seria mais um local para ficar até fugir de novo, mas tudo muda quando o Mago Shazam decide transformar o garoto em seu campeão.

Ao proferir o nome do mago, Billy não apenas se transforma no Capitão Marvel (que não é chamado assim em nenhum momento por motivos óbvios de direitos autorais), mas transforma tudo que conhecíamos do universo cinematográfico da DC até então. Enquanto Mulher Maravilha e Aquaman ainda possuem um pé no Snyderverso criado antes, até mesmo por ainda possuírem produção do diretor de Batman Vs Superman, Shazam! mostra que a fórmula de filtros escuros e heróis não-heroicos ficou para trás, agora é a hora de inspirar as pessoas.

A comparação com o próprio legado da DC nos cinemas é quase impossível, tendo em vista a dificuldade em manter tudo em uma só cronologia. A solução parece ter sido finalmente aceitar que erros foram cometidos ao longo do caminho e agora é seguir em frente. Se o caminho á frente for como esse filme, que belo caminho vai ser.

A pegada mais aventureira e comédia é o tom que o personagem precisava para poder funcionar. A falta de seriedade ajuda o filme a lidar com momentos rasos e mais profundos sem ficar algo mais bobo ou piegas, a dosagem das cenas e andamento da trama contribuem para uma sensação de que o filme é rápido e sem barrigas na sua continuidade.

A atuação do elenco principal é interessante. Enquanto Mark Strong vive seu segundo vilão da DC (já que a primeira vez foi no horrendo Lanterna Verde) e dessa vez foi para marcar a audiência. Dr. Silvana, personagem de Strong, é um oposto da inocência do Capitão Marvel, assim como é um embate físico digno do oponente. Billy Batson por sua vez é um adolescente que perdeu sua inocência junto com a perda da família, mas que retoma o lado criança quando se transforma no campeão do Mago Shazam.

No meio do protagonista e antagonista, surge Freddy Freeman, o garoto que entende tudo de super-heróis e que faz o papel do público nerd, que admira e entende como as regras desse mundo de poderes mágicos funciona. Freddy enxerga no herói a sua chance de chamar a atenção e como um garoto com problemas de locomoção, poder acreditar que ele também é especial. O ator Jack Dylan Grazer muitas vezes rouba a cena e parece até mesmo que é o protagonista do filme no lugar de Billy.

A direção em si é mecânica, mas certos elementos de narrativa que David Sandberg trouxe de sua experiência com filmes de terror ajudam Shazam! a se destacar. A forma de contar a história e o visual de alguns dos vilões vem diretamente dos trabalhos anteriores de David e são o ponto forte do filme.

Por fim Shazam! nos mostra que cada herói pode ter seu tom e que a fórmula engessada e desgastada da Warner parece finalmente ter perdido a força. Ao segurar no cajado do Mago e ter dito seu nome, Billy Batson não só ativa os poderes de Shazam, mas nos faz acreditar nos heróis novamente.

Confira também a crítica do A Hora Suave em vídeo:

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