O clichê é uma forma de denominar quando algo é tão bem-sucedido em alguma coisa que já criou raízes no imaginário popular, tornando-se facilmente reconhecível. Dentro do cinema, são infindáveis as histórias contadas e recontadas, de forma que só um mero título já consegue nos fazer criar uma opinião prévia sobre tal filme. Sendo assim, o que esperar de “Cinderela Pop”? Existe uma grande chance de você acabar se surpreendendo!

Enquanto uns buscam trabalhar o clichê por uma visão totalmente nova, e outros querem apenas aproveitar os sucessos anteriores contando exatamente a mesma história, aqui temos uma atualização do conto da princesa da Disney. Na trama, a jovem Cíntia Dorella (Maísa Silva) acaba se desiludindo com o amor depois que seu pai César (Marcelo Valle) é pego traindo sua mãe Ana (Miriam Freeland) em uma festa dada pelo próprio casal. A descoberta do adultério foi arquitetada pela amante Patrícia (Fernanda Paes Leme), com a ajuda das filhas gêmeas Graziele (Kiria Malheiros) e Gisele (Letícia Faria Pedro).

A partir da separação e posterior casamento do pai com a amante, Cíntia passa a morar com sua tia Helena (Elisa Pinheiro), enquanto a mãe está estudando no Japão. Tentando ficar longe das garras do pai autoritário e da agora madrasta traiçoeira, a protagonista faz de tudo para realizar o seu sonho de estudar música no exterior, conciliando a vida escolar com a profissão, através da alcunha de DJ Cinderela. Até que uma oportunidade de tocar numa festa de aniversário bagunça a vida de Cíntia em todos os sentidos.

Até então, não parece muito com a história conhecida da princesa Cinderela, certo? Pois é, um dos três grandes trunfos de “Cinderela Pop” é não se escorar totalmente no clássico conto da Disney, e sim usá-lo apenas como inspiração para seus eventos principais. As semelhanças ficam aparentes a partir do (re)encontro de Cintía e Freddy Prince (Filipe Bragança) na tal festa de aniversário, onde a DJ Cinderela perde o seu sapato, que o “príncipe” encontra e segue em sua busca pelo amor à primeira vista.

Também é interessante notar como a obra sempre busca trabalhar uma pegada mais contemporânea em seu roteiro, que deve trazer bastante identificação com os adolescentes contemplados como público-alvo do filme. O ambiente escolar, embora sofrendo com a falta de vivência dos jovens atores, é eficiente em retratar dramas juvenis, bullying, injustiças sociais e raciais, e criar backgrounds para Cíntia e grande parte dos coadjuvantes. E ainda há o arco de autovalorização pessoal de Lara (Bárbara Maia), que além de toda a importância de servir de exemplo para o espectadores, ainda estabelece uma boa relação de sororidade com a youtuber Belinha (Giovanna Grigio).

Aliás, essa é a segunda qualidade notável de “Cinderela Pop”: seu elenco. A grande maioria dos papéis têm arcos narrativos visíveis, e, ainda que alguns sejam bem rasos, a estratégia funciona para aumentar a nossa empatia pelos personagens. Para isso, o roteiro de Bruno Garotti (que também dirige), baseado no livro homônimo de Paula Pimenta, utiliza os clichês em benefício próprio, afinal, pra que focar tanto no possível casal Cíntia e Freddy Prince (nome mais sugestivo impossível) se todos que assistem já imaginam o que vai acontecer na história? É uma ideia ótima, que ocasiona um aproveitamento louvável de um tempo bem limitado de duração (1h36) para esse tipo de enfoque.

Por fim, é necessário destacar a atuação de Fernanda Paes Leme como a vilã Patrícia. Em possivelmente um dos melhores papéis de sua carreira, a atriz encarna a própria mistura do mal com o atraso e pitadas de psicopatia. É praticamente impossível não odiar a personagem, que faz todo tipo de trapaça para atazanar a vida de Cíntia, e “dá seu jeitinho” para conseguir tudo o que almeja. Boa parte do restante das atuações da obra mostram-se até razoáveis, mas quando colocadas ao lado de Fernanda, não há como não sentir a diferença de qualidade.

Não é surpresa que o filme apresenta problemas. Além da já citada inexperiência do elenco mais jovem, algumas coincidências narrativas soam forçadas demais, até mesmo para uma parcela do público mais desinteressada pela trama. Ainda assim, a história consegue manter uma aura de romance adolescente + feel good movie, especialmente graças ao elenco carismático que o diretor tem em mãos. A exceção fica por conta da trilha sonora, que parece invadir o espaço das cenas, perdendo a mão em vários momentos, mesmo se tratando de um filme com uma vibe musical.

“Cinderela Pop” não inova o clássico clichê, mas encontra sua qualidade apenas fazendo o básico para modificá-lo. Além de uma boa carga social, a obra brilha apostando no carisma do seu elenco e com um gostinho adolescente em uma história que, apesar de tão batida, dificilmente deixará de ser cativante.

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