Espelhos assustam. Ou pelo menos é o que uma grande maioria de filmes de terror acredita ao brincar com reflexos, transformando o singelo espelho de banheiro em um portal para o mundo do além. Alguns até são bem-sucedidos, como o bom ‘O Espelho’ (2013) e o interessante ‘Espelhos do Medo’ (2008), porém, o gênero sempre encontra uma maneira de elevar a temática “possessão” a níveis inexplorados. O ruim é quando essa criatividade transborda e se perde, restando apenas um projeto que poderia ter sido envolvente se tivesse focado mais em seus personagens atraentes do que em assustar a base de jump scares baratos. E sim, o suspense ‘Não Olhe’ (Look Away) se encaixa perfeitamente nessa ausência de engenhosidade.

Na trama simples e sem grandes reviravoltas, uma solitária jovem não consegue se encaixar dentro de sua família sem química e, sem ter amigos que realmente a querem bem, desenvolve um diálogo macabro com seu próprio reflexo, na tentativa de desabafar seus problemas, porém, o espelho guarda uma versão vingativa e obscura de si mesma, que troca de lado para fazer justiça com suas próprias mãos. E esses são basicamente todos os acontecimentos do filme. O roteiro é previsível, antecipa, de forma falha, tudo que está por vir, mesmo o suspense sendo crescente durante o primeiro ato, onde o terror psicológico ganha força e promete reviravoltas interessantes, que infelizmente nunca chegam. A trama deixa de lado a vibe ‘Carrie, A Estranha’, que agrada ao primeiro olhar, para se aprofundar em reflexões (com o perdão do trocadilho!) enjoativas e desinteressantes.

A atmosfera sombria e fria é atrativa, realçada pela direção de fotografia, que se aprofunda em tons de azul e cinza, fora que a atriz que vive a protagonista, India Eisley (I am The Night) tem um tom de pele pálida, perfeita para a personagem, que parece estar morta a maior parte do filme, com exceção de algumas poucas cenas em que precisa ter mais expressão do que apenas fazer cara de tímida. Não que ela esteja ruim, mas o roteiro é tão fraco e lhe permite tão pouco aprofundamento, que fica difícil se entregar. Sua versão malvada até consegue ser sexy, perversa e atrativa, pena que demora mais de uma hora para que ela assuma a posição de destaque. Já Jason Isaacs (Harry Potter) vive um pai abusivo, o mesmo canastrão que costuma interpretar em outros filmes, nada de novo a acrescentar.

A química entre pai e filha convence tão pouco quanto os motivos vazios que a protagonista encontra para se vingar de seus amigos. E para piorar, as cenas de ação/terror são picotadas, mal filmadas, pelo diretor e roteirista Assaf Bernstein (A Grande Mentira), e não possuem a violência necessária para que sejam envolventes, como a fatídica cena da perseguição no gelo, que acaba com uma morte “acidental”, completamente sem inspiração. O ritmo lento da narrativa também não contribui para nos entreter. A trama não avança e se torna repetitiva, sendo que se o longa tivesse meia hora a menos teria sido ideal, apesar de imperfeita.

Levando-se em conta o que foi observado, em ‘Não Olhe’ falta tudo que faz um bom thriller psicológico ser bom. Não te aterroriza, não impressiona, a sensação de perigo crescente leva para lugar nenhum e a protagonista até tenta dar o seu melhor, mas entrega duas personagens sem carisma e sem emoção. Se não fosse pela premissa intrigante e a boa atmosfera sombria, passaria batido pelos olhos do público, sendo um terror tedioso, que tem pouco a apresentar e menos ainda a acrescentar ao gênero. Como avisa o título, talvez seja melhor mesmo nem ver.

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