Durante o período denominado Nouvelle Vague, o cineasta francês Chris Marker realizou um trabalho excepcional no curta-metragem ‘La Jetée’, rodado em preto e branco e composto apenas por fotografias que, juntas e colocadas uma após a outra, narram a história do filme. O trabalho foi tão marcante para a história do cinema, que rendeu inúmeros estudos sobre a linguagem cinematográfica, além de ter servido de inspiração para o longa ‘Os Doze Macacos’, de Terry Gilliam. E esse curta de 1962 se mantém vivo no thriller nacional ‘Albatroz’, que aposta sua inovação narrativa exatamente na maneira como a história é contada, mesclando, de forma interessante, cenas gravadas com fotografias em preto em branco, semelhante ao trabalho de Marker, porém, acrescenta uma linguagem moderna e intrigante, que perpetua por toda a projeção.

De fato, ‘Albatroz’ não é para todos os públicos. O roteiro é complexo e construído de forma extremamente elaborada por Bráulio Mantovani (de ‘Cidade de Deus’ e ‘Tropa de Elite 1 e 2’), que certamente buscou inspirações no cinema confuso, porém extraordinário, de David Lynch (‘Twin Peaks’, ‘A Estrada Perdida’) e também na narrativa “sonho dentro de um sonho” tanto explorada por Christopher Nolan (‘A Origem’, ‘Memento’). Essa união de temas abstrusos faz nascer uma trama labiríntica, que explora a vida do fotógrafo Simão (Alexandre Nero), que durante uma viagem para Jerusalém com a amante Renée (Camila Morgado), presencia e registra um ato terrorista que o torna mundialmente famoso, ao mesmo tempo em que é bombardeado por questionamentos éticos sobre se poderia ou não ter salvado uma vida ao invés de fotografar o incidente. Após entrar em depressão e se dedicar apenas a fotografar seus sonhos, tenta salvar seu casamento com Catarina (Maria Flor) e é procurado por Alícia (Andréa Beltrão), a primeira namorada da adolescência, que o convida a realizar uma experiência no laboratório da neurocientista Dra. Weber (Andréia Horta). A proposta, porém, logo se revela uma misteriosa armadilha.

Após um primeiro ato confuso e caótico, que não entrega respostas e apenas acrescenta mais e mais mistérios à trama, o suspense é intenso e crescente, já que a narrativa não é linear e os acontecimentos são entregues de forma picotada, mixada com outros elementos como fotografias, narração em off e histórias paralelas, que juntas formam uma grande trama principal, repleta de reviravoltas mirabolantes e entrelaçadas, construídas com perfeição pela montagem, que aliás é um dos elementos de maior destaque do longa. O trabalho de edição do filme, junto a direção precisa e estonteante de Daniel Augusto (‘Não Pare na Pista’) e a trilha sonora atmosférica, tornam o longa um exemplo divertido de suspense e, sem dúvida, inovador dentro da cinematografia brasileira, já que prende a atenção do começo ao fim ao se arriscar na terra de gêneros complexos e ainda pouco explorados no cinema nacional.

A direção de fotografia utiliza cores vivas para passar as sensações diversas que Simão sente por conta da sua sinestesia, já que ele consegue enxergar cores diferentes toda vez que escuta algum som. As luzes, somadas as fotografias e as cores são quase que hipnóticas em determinados momentos, ressaltando ainda mais a percepção de estranheza e loucura do roteiro, que junta uma subtrama de vingança, estrelada por Andréa Beltrão (que aliás encaixa como uma luva no papel de vilã), com uma trama voltada para o lúdico e a ficção científica, que consegue fazer sentido no fim das contas, mesmo que a explicação durante a conclusão torne o final menos impactante. Alexandre Nero passa a verdade do seu personagem com entusiasmo e Camila Morgado rouba a cena toda vez que aparece.

Essa mistura de gêneros, sensações e interpretações diferentes faz ‘Albatroz’ ser um divertido quebra-cabeça surrealista inspirado em obras inteligentes de cineastas como Lynch e Nolan, que brinca com a nossa percepção do que é sonho e o que é realidade, ao mesmo tempo que entrega um suspense estonteante e completamente diferente de tudo que você já viu no cinema nacional. Uma inovação de linguagem que vale à pena ser destrinchada.

AVISO: O filme contém cenas com luzes coloridas que piscam em alta velocidade, fora a montagem, que provoca náuseas e dor de cabeça. Algumas pessoas na sessão que estive precisaram se retirar por conta disso. Sendo assim, o filme NÃO é adequado para pessoas com epilepsia, autismo e/ou Síndrome de Down. Vale o aviso antes das sessões do filme!