Em um mundo com deuses asgardianos, super soldados da Segunda Guerra Mundial, bilionários com armaduras e gênios que se transformam em monstros, não parece haver espaço para que uma mulher se destaque. Ao anunciar um filme protagonizado por Carol Danvers, a Marvel assumiu um risco não só pelo protagonismo feminino em um mundo tão machista, mas por ousar colocá-la em um patamar igual ou superior aos poderosos mais conhecidos da editora de quadrinhos. Parecia que a Capitã, além de Skrulls, Krees e Thanos, ainda teria que enfrentar a horda de egos masculinos machucados para se validar como heroína. Claro que existia a dúvida se a personagem seria capaz de enfrentar tudo isso e ainda assim sair com saldo positivo, mas essa dúvida só dura até o letreiro do filme aparecer na tela. Capitã Marvel é fantástica.

Vers é uma soldado Kree, que ajuda seu povo na eterna batalha contra os Skrulls, raça alienígena que invade mundos se disfarçando de seus habitantes e os rouba silenciosamente. Em uma operação militar guiada pelo seu mentor, Yon-Rogg, a personagem interpretada por Brie Larson é capturada pelos seus algozes e submetida a experimentos em busca de uma memória dentro de sua cabeça. Lá ela descobre que possui alguma ligação com o planeta Terra e, ao se libertar, acaba caindo nos Estados Unidos, onde começa sua jornada em busca da verdade.

O filme não se arrisca em bolar uma trama densa ou mais elaborada, até porque esse é o padrão Marvel de conduzir seus heróis diante do grande público, mas toda simplicidade é compensada nos detalhes do filme. Brie Larson entrega uma Carol Danvers carismática e bastante expressiva, criando uma ligação com o público de uma maneira que até mesmo a personagem dos quadrinhos dificilmente conseguiu. A personalidade da Capitã ajuda nos momentos de interação, principalmente com Nick Fury, deixando boa parte do filme com a cara de um longa policial ao melhor estilo Máquina Mortífera.

O elenco de apoio ajuda a sustentar a trama de Carol. Samuel L. Jackson em uma versão mais nova consegue soltar o lado mais cômico de Larson, enquanto Maria Rambeau e Yon-Rogg funcionam como gatilhos para os momentos dramáticos.

O Universo Espacial da Marvel também está bem estabelecido nos cinemas, fazendo com que o longa não perca muito tempo contextualizando tudo para a audiência e deixando com que a história do filme seja mais importante do que seus detalhes. A novidade desse Universo fica por conta da raça Skrull, que foi muito bem apresentada e reproduzida na tela grande.

Um dos pontos fortes do filme também é a subversão da narrativa básica dos filmes de heróis, criando uma situação inusitada, que vai surpreender tanto os que leram os quadrinhos, quanto quem for ver sem saber nada da personagem. Além disso, Capitã Marvel consegue dosar bem o humor com momentos mais dramáticos e de ação, sem perder muito o equilíbrio como alguns filmes anteriores da Casa das Ideias.

O ponto negativo fica por conta da ambientação dos anos 1990. Depois de passarmos muito tempo sendo bombardeados por referências culturais da década de 1980, os cineastas parecem ainda não ter aprendido a referenciar uma época recente sem ficar extremamente caricato. O lado bom disso é a trilha sonora que acaba ficando muito boa, mas poderia ter sido feito com mais parcimônia.

Ao final dos créditos é difícil entender quem não ache Capitã Marvel uma heroína de grande escalão e não esteja ansioso para ver ela em Vingadores Ultimato.

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