Boas histórias podem ser facilmente destruídas por roteiros ambiciosos demais. Ou talvez nem precise de tanta ambição assim, basta acrescentar uma boa dose de incoerência que já serve para fazer a embarcação afundar. Como é o caso do suspense ‘Calmaria’ (Serenity), que navega em uma maré de inconsistência até culminar na fatídica reviravolta, que brinca com a inteligência do espectador e acredita estar sendo inovador quando, na verdade, se perde dentro de gêneros que não sabe resolver e tramas que não levam para lugar algum.

E não é por falta de um elenco espetacular, já que Matthew McConaughey (Interestelar) vive o perturbado protagonista e os premiados Anne Hathaway (Oito Mulheres e Um Segredo), Djimon Hounsou (Aquaman), Diane Lane (O Homem de Aço) e Jason Clarke (O Primeiro Homem) são os coadjuvantes. Então, o que pode dar de tão errado com tanta gente boa envolvida? Simples: um roteiro absurdamente fraco somado a desinteressante premissa inicial, que muda completamente no 2º ato para algo surreal à la ‘Black Mirror’. Apesar de ficar um pouco mais interessante, de fato, não sabe lidar com a súbita mudança de gênero, resultando assim em uma desastrosa obra que tinha tudo para ser agradável, já que a trama brinca com estereótipos e cria uma excelente ambientação para história, em uma ilha misteriosa do Caribe, semelhante à obras de Stephen King e que também lembra (bem vagamente!) o seriado ‘Lost’.

Toda a primeira parte é enjoada e sem empolgação. A história é lenta e não parece avançar nunca, apesar do ritmo dos cortes ser instigante, graças a montagem acelerada e a ótima condução do diretor e roteirista Steven Knight (Locke), de longe o ponto positivo do longa. Seus planos elaborados e o uso de alguns “match cut” tornam a narrativa mais proveitosa e agradável de ser assistida, evitando que o longa seja um completo desperdício de talentos. Mesmo com o roteiro fraco e previsível, e uma reviravolta ainda mais debilitada, a trama esconde algumas qualidades que não passam batidas. Temas como o questionamento da realidade, por exemplo, brincam com nossa atenção aos detalhes entregues desde o início do longa e nos coloca na pele do protagonista, já que sabemos tanto daquele lugar onde vive quanto ele, fora a atuação de McConaughey, sempre dedicada, não sendo diferente aqui, já que carrega o filme nas costas. A direção de fotografia, que utiliza muita luz natural, também contribui para tornar o lugar encantador e místico.

Dessa forma, o maior de todos os problemas de ‘Calmaria’ é não se achar em gênero nenhum. No suspense, boia sem saber para onde ir, já na ficção científica, que deveria ser a parte mais interessante, oferece tão pouco embasamento que fica difícil aceitar a realidade dos fatos e, assim, sentir afeição pelos personagens e suas jornadas individuais. Não que o plot twist não seja até divertido e curioso, já que deve pegar muita gente de surpresa, mas é mal acabado, mal apresentado e mal aproveitado, sendo um fracasso na tentativa de resgatar a energia da trama, que já havia morrido no 1º ato. É doloroso ver o roteiro tentar justificar o maçante começo com um simples “era tudo de propósito!”.

Talvez a jornada possa até ser divertida para alguns e o fatídico plot twist surpreenda os mais interessados, mas ‘Calmaria’ joga fora todas as surpresas ao entregar um roteiro maçante, incoerente e repetitivo. O elenco grandioso se perde em meio a tanta falta de energia dos personagens. Veja bem, são dois ganhadores de Oscar que nem estão no fim de carreira para participar de um filme tão trivial e esquecível. Parece que a maré de azar afundou também outras embarcações além da Jennifer Lawrence, uma farofa que poderia ter sido evitada.