The Umbrella Academy é uma adaptação dos quadrinhos homônimos criados por Gerard Way (ex-vocalista da banda My Chemical Romance) e desenhados pelo brasileiro Gabriel Bá. Uma das maiores apostas da Netflix para este ano, com direito à vinda de grande parte do elenco principal e idealizadores para a CCXP 2018, a série estreou nesta sexta-feira (15/02) gerando muita expectativa no público assíduo da plataforma de streaming.

HISTÓRIA

A narrativa começa em 1989 com um acontecimento curioso: 43 partos súbitos realizados ao mesmo tempo no mundo, cujas mães sequer tinham sinais de gravidez. É aí que Reginald Hargreeves (Colm Feore), um milionário de sanidade mental duvidosa, decide adotar sete dessas crianças, dentre as quais seis aparentam ter super-poderes. Ele então decide treiná-las para aperfeiçoarem seus poderes e formarem a equipe de super-heróis que dá título à obra.

Entretanto, a série acaba não avançando muito no treinamento dos jovens heróis, reservando-se ao presente onde eles, já adultos e após cada um seguir sua vida, encontram-se novamente devido à morte do “pai”. O aparecimento repentino de um deles, sumido desde que eram crianças e surgindo agora de uma espécie de fenda no espaço-tempo, dá início ao desenrolar da trama principal, onde eles precisam se reunir para impedir o fim do mundo!!! Ok… talvez não seja tão empolgante assim.

RITMO

Antes de falar qualquer coisa sobre The Umbrella Academy, é preciso deixar algo claro: a série é muito lenta. Muito. São dez episódios de sessenta minutos cada, o que faz com que assistir tudo seja extremamente maçante e cansativo. Tudo bem que são muitos personagens e, por se tratar de uma equipe, todos devem ter pesos semelhantes na trama. Mas mesmo assim, o quanto a série consegue inserir cenas gratuitas e que não acrescentam em nada na história é algo a se respeitar – ou não.

Além da morosidade em fazer a narrativa andar e dos longos e arrastados episódios de quase uma hora de duração cada, os cliffhangers também são pessimamente utilizados, de modo que é até difícil prosseguir com a maratona porque dificilmente sente-se aquela avidez em passar para o próximo capítulo. A série gasta tanto tempo de tela querendo construir os backgrounds de TODOS os personagens que consegue com que nos importemos com nenhum deles. Se algum faz alguma diferença para o espectador, é bem mais por carisma e atuação do que pela história contada.

PODERES

Primeiramente que The Umbrella Academy já tem um mérito próprio por trazer poderes bem diferentes dos clássicos arquétipos adotados por Marvel/DC. As habilidades são em sua grande parte originais, “estranhas” no bom sentido e, de quebra, exigem pouco do orçamento de efeitos especiais, algo que causa verdadeiras hemorragias em produções seriadas. Dito isto, é certo afirmar que, apesar do ótimo material em mãos, a série pouco faz para atingir seu potencial.

Por mais interessante que seja descobrir alguns dos poderes no decorrer da narrativa, um exemplo vale ser mencionado. A habilidade do Número Cinco (Aidan Gallagher) é atravessar o espaço (ou o tempo), como uma mescla dos poderes dos mutantes Noturno (teleporte) e Blink (portais). Por mais que já tenhamos visto cenas de ambos os X-Men nos cinemas, uma sequência de ação envolvendo esses poderes será sempre uma escolha certeira, correto? Parece que não, pois quando teremos a primeira grande luta envolvendo Número Cinco, a fotografia fica tão escura que não é possível aproveitar tanta coisa da cena. No episódio seguinte, acontece a mesma coisa, mostrando que não foi um acidente de percurso, e sim uma decisão pensada – muito provavelmente visando economia de orçamento, o que é uma pena.

Isso pra não citar a personagem Allison (Emmy Raver-Lampman), que tem um dos poderes mais interessantes, mas a quantidade de vezes utilizadas nesta primeira temporada pode ser contada nos dedos de uma única mão. Sem falar também no background da então atriz de sucesso que tem problemas com sua filha e seu ex-marido. Mesmo martelando isso ao longo de vários episódios, o roteiro não consegue conferir a profundidade necessária para algo que deveria ser tão importante para nós.

COMÉDIA

Apesar de ser uma proposta diferente de um mundo com super-heróis, The Umbrella Academy também apresenta algumas práticas comuns do meio, como é o caso de cenas mais descontraídas. Acontece que tempo de comédia dos atores (e, por que não, do texto também) é muito fraco. As piadas são tão fora de timing que acabam ocasionando situações que beiram o ridículo, e não de uma forma engraçada, mas sim fazendo sentir vergonha alheia do que estamos vendo.

O pouco que se salva é a Comissão do Tempo e seu humor burocrático e de tom britânico, lembrando as história de Douglas Adams ou Terry Prechett. Os personagens Hazel (Cameron Britton) e Cha-Cha (Mary J. Blige) parecem tirados do livro Belas Maldições (que virará série em breve), pois trabalham obedecendo trâmites e padrões de comportamento típico de servidores públicos, agindo de forma tão natural ao realizar assassinatos sob demanda através de viagens temporais (!?). Toda a Comissão tenta fazer piada com a burocracia – com direito a uma imensa sala com máquinas de escrever e um sistema “mágico” de transporte pneumático para mensagens -, mas só a dupla realmente se destaca.

MAIS PROBLEMAS…

Um grande equívoco de The Umbrella Academy é não demonstrar uma unidade visual e narrativa ao longo dos episódios. É comum que capítulos de produções seriadas sejam dirigidos por pessoas diferentes, afinal, seria um trabalho hercúleo comandar “um filme de 10 horas”. Mas é perceptível o quanto cada diretor tenta impor uma marca em suas passagens pela série, e como isso é completamente abandonado à medida que a trama avança. Uma hora vemos o uso descomedido de câmeras lentas que pouco agregam à obra; depois, um uso interessante de quadros simultâneos, que tentam levar o visual dos quadrinhos para a tela; ainda temos um uso interessante de timelapses para contar uma história novamente após uma alteração temporal (sem spoilers). Note que algumas decisões são interessantes, enquanto outras nem precisavam existir. O que elas têm em comum é que todas são mantidas por um, dois episódios no máximo, porque não existe alguém que trabalhe para manter uma identidade da série como um todo.

Ainda vale notar que felizmente a série decidiu optar por não ter uma vinheta de abertura, gastando apenas alguns segundos no início de cada episódio para inserir o logotipo da Umbrella Academy em lugares estrategicamente aleatórios do quadro. Até porque, se além de toda a longa duração ainda houvesse uma abertura em vídeo, seria quase como dar uma ordem para o espectador cochilar e acordar, quem sabe, no fim do capítulo.

UMA LUZ NO FIM DO TÚNEL

Surpreendentemente, a série parece entrar nos eixos nos capítulos finais. É justo constatar que a trama gastou muito do seu tempo construindo várias raízes narrativas que aos poucos foram se entrelaçando e revelando um caule de histórias mais unificadas entre si. Quando tudo era (ou parecia ser) só “encheção de linguiça”, era realmente complicado defender o roteiro. Mas quando o que importa ganhou mais destaque e, principalmente, o que não fazia a história andar foi deixado de lado, chega até a nos fazer questionar por que tudo não foi assim desde o início. Apesar de deslizes (especialmente de efeitos e, novamente, fotografia escura), o que vemos nos episódios finais de The Umbrella Academy é algo animador, especialmente para quem vinha se decepcionando desde o primeiro capítulo.

VEREDITO

A série tinha grande potencial para contar uma ótima história de drama familiar com seres superpoderosos, assim como uma boa dose de ação. Mas as sequências de lutas são pouquíssimas – e muitas delas com problemas -, e toda a carga dos irmãos com habilidades especiais, além de mal trabalhada, é enfadonha e difícil de assimilar. Assim como (infelizmente) se espera de uma produção da Netflix, tudo é muito arrastado, sobretudo na metade inicial. Mas os episódios finais, especialmente com a deixa para a próxima temporada no último capítulo, dão um gostinho do potencial que a série e a história dos Hargreeves é capaz de nos dar. Seria pedir muito uma continuação mais enxuta e indo direto ao ponto? Com certeza seria uma garantia de evolução.