Atores e atrizes extraordinários às vezes se “escondem” por trás de papéis caricatos. De tanto que certa pessoa faz certo tipo de filme, nós começamos a achar impossível ver alguém como Jim Carrey, por exemplo, fazer um filme de terror, já que seu lado cômico é o que, de fato, vende o filme. Exatamente por isso é tão interessante assistir a talentosíssima Melissa McCarthy (A Espiã Que Sabia de Menos) sair de sua zona de conforto em ‘Poderia Me Perdoar?’ (Can You Ever Forgive Me?) e viver uma personagem densa, cheia de camadas e desagradável, tratada de forma tão doce pela roteirista Nicole Holofcener, que baseia sua trama na história real da vida da jornalista Lee Israel, cuja parte de sua carreira fora dedicada a forjar cartas para se sustentar e, de alguma forma, ser lida e encaixada na sociedade. É aquele caso em que a atriz perfeita vive um papel que parece ter sido escrito para ela desde o começo.

Com o papel certo em mãos, McCarthy agarra a chance de mostrar que sabe ser mais do que apenas uma atriz talentosa na comédia e se mostra eficaz também no drama, afinal, sua atuação transcende o que poderia ser uma personagem sem carisma e entrega uma mulher doce, solitária e que se encontra em uma terrível crise de falta de inspiração, motivo pelo qual a leva a roubar e forjar cartas de autores famosos, como Katharine Hepburn e Dorothy Parker, e vender para colecionadores. Dá gosto de assistir sua expressão séria e fechada, mas que por trás esconde um ar cômico típico da atriz, perfeitamente equilibrado e intensificado ao longo de todo o filme.

Como o ritmo é lento e a trama se desenvolve de forma devagar, a força do roteiro está mesmo na construção da protagonista, que segue um sutil arco dramático até o desfecho. A narrativa se utiliza de algumas artimanhas para deixar a obra menos desinteressante, como uma constante trilha sonora clássica regada de blues, que ajuda na construção da atmosfera “New York boêmia”, junto com a fotografia sépia, para dar o ar de antigo, que lembra a textura amarelada das cartas que a personagem forja. A direção de Marielle Heller (Caçada Mortal) é delicada, confortável e contextualiza perfeitamente todos os elementos que exaltam a qualidade do filme, talvez exagerando um pouco na emoção, já que a tentativa de humanizar a protagonista através da relação com seu gato é um golpe baixo, típico de filmes que utilizam animais para guiar o sentimentalismo da trama. Desnecessário, porém, foi a solução barata que o roteiro encontrou para nos emocionar.

Dissecando a obra mais a fundo, há uma boa representação de até onde a solidão pode levar uma pessoa, em especial, alguém que se tornou amarga com a vida. A crise que a personagem vive é tratada com carinho pelo roteiro, que nos faz mergulhar em seu mundo melancólico e recluso, a ponto de entender suas razões ao invés de criticar e, com isso, se simpatizar com sua dor, tarefa difícil de ser realizada em um filme e que funciona perfeitamente aqui, aumentando sua qualidade e tornando-o atrativo e emocional, mesmo que seja desequilibrado em suas emoções. Outro ponto positivo fica também para o personagem de Richard E. Grant (Logan), que acrescenta o humor necessário para tirar a trama da monotonia e construir uma química perfeita com McCarthy, já que ambos os personagens são desajustados.

Levando-se em consideração todos esses aspectos, ‘Poderia Me Perdoar?’ é comovente e se sustenta pelo talento e dedicação de Melissa McCarthy, que vive seu trabalho mais desafiador e se mostra confortável no papel, motivos que tornam o longa atrativo, mesmo com seu ritmo lento e sua protagonista desinteressante na vida real. A magia do cinema é nos fazer simpatizar pelo antipático e se sensibilizar pelo incorreto, e isso a diretora Marielle Heller soube fazer como ninguém.

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