Durante o final dos anos 90, o público recebeu Sexto Sentido, que trazia uma das reviravoltas mais interessantes da história do cinema. Durante os anos 2000, o mesmo diretor, M. Night Shyamalan, entregou outras produções tão bem feitas quanto e com surpresas ao fim da trama, como Sinais, A Vila, Fim dos Tempos e tem seu auge em A Visita, quando consegue transformar algo que parece tão simplório em uma obra-prima do terror. Vidro, a finalização da trilogia iniciada 19 anos atrás, é como grande parte das produções do diretor: ousado e perspicaz, colocando em pauta a qualidade dos filmes de super-herói.

Existe um ponto pacífico em todas as obras de Shyamalan: elas nunca têm como objetivo ir na onda do cinema da época – não é à toa que ou o diretor é considerado um gênio ou um retrógrado. O mesmo se aplica para este filme que encerra a trilogia que começou em 2000 com Corpo Fechado. A história segue os três protagonistas apresentados ao longo dos dois primeiros filmes: David Dunn (Bruce Willis), Senhor Vidro (Samuel L. Jackson) e Kevin Crumb (James McAvoy). Todos são levados para um hospital psiquiátrico que tenta convencê-los de que, na verdade, eles não têm nenhum tipo de superpoder.

Logo de cara, as cores são o que mais surpreendem. A fotografia de Mike Gioulakis é precisa nesse ponto. O verde representa o lado dos super-heróis, o lado do bem. O roxo fica para os vilões. E o amarelo é como se fosse o meio termo, representando a figura que tem tendências, mas que não é necessariamente má ou boa.

A forma como as histórias de David Dunn e Senhor Vidro convergem com a Besta é um dos pontos altos do filme. M. Night Shyamalan faz parecer como se sempre houvesse um plano de criação de universo de super-seres, fazendo com que exista uma espécie de mitologia, onde esses personagens são marginalizados por pessoas que não entendem suas habilidades.

E é justamente aí que entra o ponto mais interessante do filme. Ao longo das duas horas de história, existe uma discussão bem clara sobre se os poderes que aqueles três homens alegam ter são realmente reais. A ambiguidade e a dúvida nos personagens são peças que acabam sendo pouco exploradas e rapidamente superadas. Apesar disso, ainda reside, por trás disso tudo, uma discussão totalmente atual.

A doutora que estuda os três, Ellie Staple (Sarah Paulson), questiona em vários momentos a legitimidade do discurso deles e, mais importante, o legado de histórias em quadrinhos no mundo contemporâneo. É sutil, mas Shyamalan coloca em pauta uma discussão sobre a validade dos super-heróis e histórias em quadrinhos no cinema atual, justamente em uma época em que as telonas estão lotadas com heróis da Marvel e DC. A forma como o diretor consegue provar a legitimidade dessas histórias e apresenta uma autoafirmação da nerdice na sétima arte é fenomenal – e serve apenas de mais uma prova de como a linguagem de Shyamalan está à frente de seu tempo.

As cenas de ação seguem aquilo que já havia sido apresentado em Corpo Fechado, com movimentos mais lentos e cadenciados, mas nem por isso mais desinteressantes. E, ainda que de forma não tão abrupta, o longa também guarda uma boa reviravolta para aqueles que já conhecem o trabalho do diretor.

Vale o destaque também para a atuação de James McAvoy – mais uma vez. Totalmente esnobado por críticos especializados norte-americanos em Fragmentado, neste filme é possível ver o ator indo ainda mais além, mostrando mais algumas das 24 personalidades que existem no corpo de Kevin e impressiona ainda mais pela facilidade com que McAvoy consegue trocar de uma para outra. 

Vidro é uma conclusão perspicaz e sagaz, assim como o personagem-título – que já era interessante no primeiro longa-metragem e fica ainda mais agora. M. Night Shyamalan traz um final digno para uma trilogia diversificada, original, criativa e ousada. Assim como fez em 2000, o diretor dá um novo significado aos filmes de super-herói, à sua própria maneira. Mais do que isso, sutilmente e de maneira genial, Shyamalan evidencia a importância e legitimidade desses filmes, mostrando com Vidro uma autoafirmação da nerdice nos dias de hoje e deixando bem claro aquilo que todos já sabem: o mundo precisa de super-heróis – realistas ou não. 

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