Apesar de ter nascido do entretenimento, com o passar das décadas o cinema foi se tornando uma das mais importantes expressões artísticas da humanidade. O poder de um filme é sem precedentes e a influência de seu conteúdo em nós pode assumir várias formas e nos conquistar de inúmeras maneiras. Sendo assim, é curioso que, após ser cultuado, o cinema retornou com força ao entretenimento para se adaptar ao novo público e as novas formas de exibição, de onde também surgiu a Netflix e os demais serviços de streaming. Então é de se esperar que, da plataforma mais popular da atualidade, tenha nascido uma das obras mais puras, que resgata a arte de filmar à sua essência e nos presenteia com uma obra extraordinária e contemplativa. ‘Roma’, longa-metragem de Alfonso Cuarón que, entre muitas qualidades, reafirma o poder de adaptação do cinema à modernidade.

Mesmo com sua narrativa contida e ritmo extremamente lento, se engana quem põe ‘Roma’ no patamar de filme cult e inacessível, já que seu maior mérito é mesclar perfeitamente os elementos do cinema clássico, como a busca por realismo, por exemplo, com façanhas do cinema popular, algo que, aliás, é a marca registrada de Cuarón e aqui ele realiza com perfeição e maestria. Sua direção é o holofote que põe toda a trama em foco. O uso dos planos longos, sequências e a câmera girando em seu próprio eixo, são estilosos e elaborados com muita dedicação. De fato, é um trabalho muito pessoal e o diretor constrói uma belíssima mise-en-scène, cada plano consegue ser mais belo que o anterior. Sua liberdade de criação é o que faz toda a diferença. Já a fotografia, em preto e branco, é a cereja do bolo, uma verdadeira homenagem à 7ª arte que, apesar da ausência de colorido, torna o filme ainda mais vivo e vibrante.

Acumulando acertos, a escolha do elenco não fica para trás. Yalitza Aparicio vive a silenciosa protagonista, uma babá e empregada doméstica que mora na casa de seus patrões, no bairro de classe média Roma, no México. Ao mesmo tempo em que ajuda a criar os filhos da patroa, ela passa por uma série de mudanças e desafios pessoais quando fica grávida por acidente e precisa encontrar uma maneira de ter a bebê sozinha, já que o pai foge covardemente, deixando tudo para trás. Seus olhares tristonhos e sua naturalidade em frente as câmeras nos cativa e emociona no fundo da alma, como nenhuma outra atuação nessa temporada de premiações. Aliás, tanto a trama quanto a personagem lembram muito o brasileiro ‘Que Horas Ela Volta?’, de Anna Muylaert. Ambos trabalham o sentimentalismo de forma adequada e passam a mensagem fugindo de um suposto vitimismo, ao contrário do que muitos o acusam por aí. Há também influências de seus outros trabalhos como ‘Filhos da Esperança’ e ‘Gravidade’, homenagens a si mesmo sem ser pretensioso, como Lars von Trier foi em ‘A Casa Que Jack Construiu’.

Não é apenas a parte técnica que o filme brilha, o roteiro (também assinado por Cuarón) é poderoso, angustiante e repleto de camadas. Cada cena guarda consigo diferentes interpretações sobre as personagens, os cenários, os aviões passando pelo céu, a presença constante de água, entre muitos outros detalhes. O discurso sobre desigualdade, separação de classes, facções e política/moral da época são trabalhados de maneira a nos fazer refletir sobre a sociedade e até mesmo nosso país, afinal, mesmo em 2019, o Brasil não está longe da realidade proposta pelo filme, infelizmente.

O formato de exibição na Netflix pode prejudicar o comprometimento com o filme, isso é verdade, já que toda sua enorme qualidade técnica seria realçada em uma tela grande, com som alto e, assistir esse tipo de obra nos cinemas nos mantém presos à narrativa mais do que em casa, porém, devemos aceitar que ‘Roma’ foi concebido como um filme para o serviço de streaming e, sendo um espetáculo cinematográfico ou não, é o formado adequado e pensado pela produção. Seu impacto continuará funcionando, quer assista em seu Smartphone ou em IMAX, basta que haja cuidado e atenção em escolher o momento adequado para ser assistido.

Em suma, ‘Roma’ é essencialmente um filme para se contemplar, cuja narrativa se apega a força da imagem e do som para entregar uma obra crua, real e reflexiva. Um filme como nenhum outro e, facilmente, o grande passo da Netflix rumo a modernizar o cinema visto em casa. Não desista, mesmo que o ritmo não te prenda, assistir essa obra é como vivenciar o futuro do audiovisual e Alfonso Cuarón é o visionário por trás de algo tão genial, inteligente e que deve conquistar o Oscar, ou pelo menos deveria. Começamos o filme olhando para o chão e suas limitações e terminamos olhando para o céu e seu infinito, obra de arte é assim.

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