A fórmula mágica da Disney se repete em ‘O Retorno de Mary Poppins’, continuação do clássico de 1964. Dessa vez, incríveis 54 anos depois do original, é Rob Marshall (‘Chicago’, ‘Memórias de Uma Gueixa’) o responsável por comandar a aventura. Um diretor que nem sempre acerta o tom, mas que, definitivamente, tem experiência com musicais e gosta de arriscar, porém, o fraquíssimo ‘Caminhos da Floresta’ também serviu para mostrar que o gênero é complicado, o público é específico e errar se torna uma tarefa fácil. O peso de dar uma continuidade a algo tão datado e singular também é um risco que a Disney assumiu e abraçou e, talvez por conta disso, o longa acerta em cheio na nostalgia, mas erra na falta de enredo e originalidade.

A nova trama traz uma Londres em meio a Grande Depressão, quando Mary Poppins (Emily Blunt) desce dos céus para ajudar a família de Michael (Ben Whishaw) e Jane Banks (Emily Mortimer), agora adultos, anos após o primeiro encontro com a babá encantada, a encontrar um documento que pode salvar a casa de ser tomada pelo banco e, de quebra, ainda distrai as crianças Annabel (Pixie Davies), Georgie (Joel Dawson) e John (Nathanael Saleh) dos problemas da família, com uma jornada surreal e fantástica guiada por sua magia. Soa familiar? O enredo lembra diversos filmes, em especial ‘Christopher Robin: Um Reencontro Inesquecível’, onde a criança também precisa fazer com que o adulto relembre a infância e desperte a imaginação dentro de si, entre outras semelhanças e clichês do gênero, que a Disney parece estar adotando pesado em seus novos filmes.

No entanto, a ausência de uma história mais interessante e menos convencional, não prejudica as cenas musicais que, aliás, são de longe o ponto alto. Bem coreografadas, um deleite visual incrível, mesmo que algumas canções não tenham tanta força e presença como no original, a parte musical é divertida e muito colorida, equilibrada entre os diálogos expositivos e repetitivos dos personagens, em especial do vilão vivido por Colin Firth, sem aprofundamento algum, apenas existe para fazer o mal e ponto, mais Disney que isso impossível. Em contraponto, Emily Blunt foi a escolha perfeita. Ela incorpora a fantasia e imaginação que tem dentro de si e brilha com todo o seu carisma, mesmo que seja a “falsa protagonista”, semelhante ao Chapeleiro Louco de ‘Alice No País Das Maravilhas’, que roubam a cena, mas que acabam sendo deixados de lado cerca de 60% da trama.

Convenhamos que Blunt tem presença e a dinâmica com as crianças é divertida e entretém, mas não é forte o suficiente para encobrir os erros do roteiro, com uma duração demasiadamente longa e um ritmo de cortes frenéticos, feitos pela montagem, o resultado se torna cansativo quando não há música em cena, e enjoado quando começa a dar voltas e enrola sem saber para onde seguir, como na bonita, porém, descartável para a história, cena musical com Meryl Streep. Mas sim, a atriz é sempre ótima e vê-la cantando e dançando é uma satisfação.

Outro grande destaque fica para o ator Lin-Manuel Miranda, que vive Jack, o verdadeiro protagonista do filme, que apresenta as melhores canções e acerta perfeitamente no tom do humor, uma surpresa boa e bem aproveitada pela direção, assim como as (difíceis de serem feitas!) cenas que mesclam atores reais com animação 2D, assustadoramente bem encaixadas, deixando a interação realista e admirável.

‘O Retorno de Mary Poppins’ não é um daqueles filmes que vai te fazer ter epifanias no cinema, e ele nem se propõe a isso, de fato, mas a doçura do elenco, as cores vivas dos cenários, as canções e toda a nostalgia dos clássicos da Disney, tornam a jornada visualmente encantadora, mesmo que haja uma nítida ausência de criatividade no roteiro, que teme sair da zona de conforto e só se permite extrair o mínimo possível do fato de Mary Poppins estar novamente nos cinemas após tantos anos. Poderia ter ousado mais? Poderia sim! Mas ainda é uma aventura indispensável e um presente inestimável aos fãs.