A filmografia dos diretores gaúchos Filipe Matzembacher e Márcio Reolon tem sido uma grande surpresa nos últimos anos, se tornando nomes importantes do cinema LGBTQ+ nacional e, sem dúvida, apresentando histórias cativantes e diferenciadas, que não tratam a homossexualidade como um tabu, muito pelo contrário, a normalidade é o que se tornou a chave de seus filmes, que são densos, porém, inovadores e simples ao mesmo tempo. Dessa premissa também surge ‘Tinta Bruta’, grande vencedor do Festival do Rio desse ano e uma das obras mais marcantes experimentadas no cinema brasileiro.

Na trama, que começa enigmática ao mostrar o jovem Pedro (Shico Menegat) saindo de uma audiência sobre um drama que viveu recentemente, ganha ares mais contemplativos quando foca em seu dia a dia como o famoso “GarotoNeon”, perfil que criou em um site de webcams para se exibir nu e coberto de tintas coloridas, no escuro e vazio de seu quarto, enquanto junta dinheiro dos espectadores para conseguir pagar seu aluguel e se sustentar em um apartamento que costumava dividir com sua irmã, no centro de Porto Alegre. Conforme o tempo passa, Pedro se apaixona por outro jovem do site, Leo (Bruno Fernandes), e vê nesse amor, uma saída para sua solidão.

Um dos muitos trabalhos do roteiro é desmitificar a nudez masculina no cinema, algo que faz com muita maestria, sempre valorizando a ideologia dos diretores de normalizar o “incomum”. Aqui, os corpos nus são equivalentes a objetos de arte, por mais sexualizados que possam ser. O excelente trabalho de direção, que prefere deixar planos longos, seguindo a mão do jovem enquanto passa tinta neon colorida pelo seu corpo, é excitante e artístico na mesma proporção. Além, claro, de planos longos também em cenas do seu cotidiano, com a câmera fixada no rosto do elenco, abrindo espaço para os atores agirem com espontaneidade perante momentos emocionais. Destaque para o protagonista Shico Menegat, que consegue expressar com olhares o que seu personagem, tímido e recluso, não consegue dizer verbalmente. Já Bruno Fernandes, protagoniza uma das cenas mais espetaculares, quando passa as tintas pela primeira vez em seu corpo, ao som de artistas como Letrux, que aliás, a parte musical do longa é primorosa, digna da famosa playlist “músicas para transar”.

Com a direção sabendo o que quer de cada cena, a direção de fotografia é a cereja do bolo, criando ambientes escuros e coloridos, cenários urbanos curiosos, que mostram pessoas em contra plano com a luz, em suas janelas, apenas observando a cidade em movimento. Porto Alegre se torna fria, escura e vazia no longa, reflexo do desejo dos jovens de ir embora para viver seus sonhos, e também expressa a “prisão” que Pedro se colocou, tanto dentro de si quanto onde mora, sem amigos e sem vontade de sair na rua, ou seja, deixando sua vida pacata passar diante de seus olhos melancólicos.

Mesmo com tantos acertos, um dos defeitos visíveis fica por conta do elenco secundário. Todos os atores, sem exceção, ficam presos demais ao texto (isso acontece demais no cinema brasileiro!), algo que prejudica a atuação e, consequentemente, não passa a emoção necessária de determinadas cenas. Mesmo assim, a imersão na história não é prejudicada, apenas poderia ser mais profunda se a direção tivesse dado atenção também para esses detalhes.

Sendo assim, ‘Tinta Bruta’ é um filme urbano, objetivo e cru, adaptado de um roteiro cuja intenção não é chocar, mas sim mostrar uma realidade extremamente palpável dentro de muitos lares por todas as cidades. Afinal, sua real intenção é exibir a solidão e depressão de um jovem, que levou a vida sendo colocado de lado por uma sociedade que virou as costas para o diferente e o “estranho”. Uma obra-prima tão intensa e poética, que poderia, facilmente, ser exibida em museus por aí.

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