Para começar a analisar o drama ‘A Vida em Si’ (Life Itself) é necessário compreender uma artimanha que surgiu na literatura, mas que também existe no cinema/TV chamada “Narrador pouco confiável”, que nada mais é do que uma estratégia do roteiro para desconstruir a narrativa convencional e acrescentar reviravoltas a medida que a história está sendo contada, tornando a obra imprevisível na maior parte do tempo. E é sobre isso que a trama do filme aborda, de modo geral, que é a vida, com toda sua aleatoriedade, na verdade, a grande narradora de nossos dias. Tendo isso em mente, resta apenas sentar e seguir a agridoce jornada que o filme nos leva.

O roteiro, dividido em capítulos à la Lars von Trier, é extremamente eficiente dentro de sua proposta central: emocionar. Sendo escrito e dirigido por Dan Fogelman, que se tornou mestre do drama na TV ao criar ‘This Is Us’, além de já ter dirigido bons filmes como ‘Amor a Toda Prova’. A trama acompanha o relacionamento de um casal (Oscar Isaac e Olivia Wilde), contado de diferentes pontos no tempo e continentes, mesclado com outras histórias de amor e tragédia que, no fim das contas, se unem em uma grande história sobre a vida através das gerações.

O lado emocional é forte e carregado e a trama, somada a trilha sonora (que se constrói à partir da canção ‘Make You Feel My Love’, do Bob Dylan), com a montagem, nos guia por uma montanha-russa de sentimentos, de tristeza à melancolia, passando por algumas boas risadas ao longo do percurso, sendo inevitável não sentir afeição pelos personagens, bem construídos e desenvolvidos, tendo o exato tempo em cena necessário para que possamos sentir a dor de suas angústias. Um trabalho delicado do roteiro e delicioso de ver, em especial a química entre Olivia Wilde e Oscar Isaac.

Apesar das lágrimas certas, a comédia também encontra espaço com um humor leve, sem exageros, mesmo que a parte emocional seja construída para fazer chorar a qualquer custo. Há um perfeito equilíbrio entre o riso e seriedade, fora as atuações poderosas, destaque para Antonio Banderas, Laia Costa e Sergio Peris-Mencheta, que estão no cativante núcleo espanhol da história. Olivia Cooke é uma das jovens mais talentosas de sua geração e isso se torna cada vez mais evidente, ela simplesmente brilha o quanto o roteiro a permite. Já Samuel L. Jackson faz uma participação pequena, porém hilária como ele mesmo e narrador do primeiro capítulo.

Ao meu ver, o longa possui dois problemas evidentes. Um, consiste em manipular nossa emoção a todo tempo. Algo que, inicialmente pode ser bom, mas conforme a trama avança e suas linhas do tempo se entrelaçam, fica cansativo e óbvio, perdendo em partes o fator surpresa que o roteiro tanto deixa evidente nos diálogos. Outro problema está na duração, demasiadamente longa, tornando-se exaustiva. Em determinado momento, só desejamos que acabe logo antes que o drama se torne enjoativo e prejudique a conclusão, que aliás, se tornou óbvia após 20 minutos de filme.

Deslizes à parte, ‘A Vida em Si’ soa como um longo episódio de ‘This Is Us’, pelo menos a carga emocional é tão forte quanto, mesmo a trama sendo inferior. É o típico filme para fazer chorar e refletir que, mesmo utilizando meios óbvios para arrancar suspiros, é bem sucedido na proposta e passa longe de ser ruim, é como a vida: imperfeita e agridoce, mas sempre existe aquela mensagem de superação que precisamos enxergar antes que venha a ser tarde demais.

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