Com a chegada do Halloween, nada como apostar em uma boa série de terror para maratonar nesse finalzinho de outubro. Para aproveitar esse hype, a Netflix aposta em trazer uma nova visão da famosa bruxa Sabrina, dessa vez baseada nos quadrinhos da Archie Comics (aquela mesma do “Riverdale”). Assim chega “O Mundo Sombrio de Sabrina”, que traz uma história muito mais intensa, trocando o humor leve da série antiga por temáticas relevantes e cenas sinistras. O Pipocas Club assistiu aos dois primeiros episódios da série e traz agora as nossas primeiras impressões.

A trama se situa na cidade misteriosa Greendale, onde Sabrina Spellman (Kiernan Shipka), uma meio bruxa, meio mortal, está se aproximando dos seus 16 anos. No seu aniversário, que acontecerá no Halloween durante um eclipse, ela precisará decidir se irá se tornar uma bruxa por completo, e deixar seus amigos e namorado para trás, ou continuar sua vida humana, e “desonrar” todos os seus antepassados. Qualquer que seja sua decisão, Sabrina irá sofrer. E cada vez que ela tenta encontrar uma resposta simples para essa dúvida cruel, ela acaba se machucando mais. Apesar da pegada mais adulta da série, é bem fácil compreender e aceitar esse “drama adolescente” da personagem, que procura uma forma de atender suas vontades e, ao mesmo tempo, não decepcionar ninguém. E, claro, que ela não consegue nem um, nem outro (pelo menos por enquanto).

Aliás, vale salientar: esqueça tudo o que foi visto na antiga série dos anos 1990. A atmosfera é totalmente diferente, com um clima muito mais pesado e bem difícil de gerar algum riso. Enquanto a série antiga trazia um humor bem leve, bem no esquema de sitcoms, aqui temos um ambiente muito mais denso, tanto para o lado do terror (com alguma cenas beirando ao macabro), quanto para as críticas sociais, muito presentes implícita e explicitamente na trama (fica apenas o registro que senti falta da dublagem do Salem, era icônica).

Uma dessas críticas foca no machismo e na misoginia, e isso é muito bem trabalhado nestes dois primeiros episódios. Uma boa amostra de sororidade é a ajuda que Sabrina e sua amiga Ros (Jaz Sinclair) dão quando Susie (Lachlan Watson) é agredida pelos valentões do time de futebol da escola, chegando a criar um clube onde mulheres dão suporte a outras mulheres, reivindicando direitos. Talvez a “justiça com as próprias mãos” que acontece no segundo episódio tenha ficado um pouco deslocada dessa proposta, mas ajudou a mostrar mais de como a mágica funciona na série. Ah, e quem não gosta de ver valentões se ferrando, não é mesmo?

Já que mencionamos, vamos falar da magia em “O Mundo Sombrio de Sabrina”. Longe das faíscas e raios coloridos da série antiga (e de muitas outras obras que retratam o tema), aqui a magia é algo muito, mas muito mais sutil, se traduzindo quase sempre em palavras declamadas para realizar feitiços. Inclusive, uma decisão visível na tela é a separação do mundo mágico para o mundo real. Não, não se trata de um portal, que separa duas dimensões. Acontece que sempre que a magia vai entrar em cena, as extremidades da câmera ficam desfocadas, deixando os personagens centrais em destaque ainda maior, assim como sua apreensão pelo que está por vir. Ainda que seja algo muito didático, pois acontece absolutamente todas as vezes, ao menos ajuda a situar o espectador mais desatento, além de já criar aquele sentimento de tensão, de que algo está por vir.

A grande maioria dos personagens são muito carismáticos, embora totalmente clichês (quem disse que isso sempre é um problema?). O posto de mais interessante fica para a professora Wardell (Michelle Gomez), uma espécie de vilã secundária e que deve ser a principal antagonista dessa temporada. Apesar do estereótipo de professora malvada, com muitas caras e bocas, a personagem é encantadora e tem uma presença forte, mesmo sem sabermos bem o que ela, de fato, quer. Além dela, temos as tias Zelda (Miranda Otto) e Hilda (Lucy Davis),  quase o retrato fiel do policial bom e do policial mau. Ambrose (Chance Perdomo), primo de Sabrina que mora com ela e as tias, é aquele porto seguro sempre pronto para tirar a protagonista de uma enrascada. E por aí vai: namorado ingênuo, sacerdote misterioso, trio de meninas infernizando a protagonista… nihil novi sub sole.

Por mais que seja bom ver vários personagens cativantes, isso acarreta talvez o maior problema nesses primeiros capítulos da obra. Subtramas demais foram criadas para “povoar” os episódios, para que tivéssemos um peso igual do ambiente humano e da esfera mágica na vida da protagonista. Contudo, uma hora de duração repleta de acontecimentos com pouca relevância imediata podem acabar cansando, deixando claro um problema de ritmo que precisa ser consertado até o final. Isso ainda causa o problema da série ter o dever de fechar essas pontas soltas, o que pode causar um problema sério caso falte planejamento para isso (o que pode não ser o caso, já que a segunda temporada já está confirmada). E, para completar, a trama principal, envolvendo o Dark Lord e toda a questão de Sabrina ir ou não de vez para o mundo mágico, deixou muita coisa na cara sobre o que vai acontecer no futuro e as motivações do vilão principal ainda nesses dois primeiros episódios.

Ainda que se mostre um pouco dispersa no que quer nos mostrar de verdade, “O Mundo Sombrio de Sabrina” ostenta muita qualidade nos dois primeiros episódios. Soube criar cliffhangers para manter o interesse na história, a trilha sonora casa perfeitamente com o ambiente, a abertura estilizada no formato dos quadrinhos originais é belíssima, dentre outras já citadas. Se a série conseguir manter um foco maior em menos temas, conseguindo assim desenvolvê-los melhor, além de trazer mais reviravoltas na trama principal, é certo afirmar que será uma obra bastante promissora.

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