Um dos maiores méritos do gênero documental é conseguir transmitir ideias, riscos ou problemas de uma forma didática e compreensível por grande parcela do público, que consegue, ao mesmo tempo, entreter-se e informar-se. Visto por esse viés, é difícil não encontrar qualidades destacáveis em qualquer exemplar desta categoria. “Ser Tão Velho Cerrado” pode ser considerado um bom exemplo deste pensamento, pois mesmo sem buscar inovar como um documentário, a obra é notória no que se propõe a fazer: alertar a população sobre o crime que está acontecendo com este bioma tão importante da natureza brasileira.

O longa é bastante professoral em sua introdução. O diretor André D’Elia buscou, além de destacar a importância para o ambiente e a sociedade onde se localiza, apresentar a vastidão do cerrado para os muitos que podem não o conhecer. Para isto, ele serviu-se de uma montagem alternando entre filmagens que registram a biodiversidade do ecossistema, e entrevistas com especialistas no assunto – desde estudiosos até os habitantes do local, que dependem diretamente da conservação do bioma para sobreviverem. Tudo isso foi pensado para despertar empatia no espectador, que precisa se importar com o objeto de estudo para ser futuramente impelido a fazer algo a respeito.

Esse caráter didático vai rapidamente transformando-se na crítica a que o filme si dispõe quando o assunto tratado passa de apenas destacar a beleza e importância do cerrado para os problemas que este ecossistema enfrenta, muito devido às atitudes vorazes e gananciosas dos grandes agropecuaristas, latifundiários e mineradores. Vale ressaltar que D’Elia demonstra determinação ao mostrar que a atuação desses empresários está dentro da legalidade – devido ao estapafúrdio Novo Código Florestal Brasileiro – mas está longe da moralidade. O diretor ainda é bastante corajoso ao confrontar os próprios pecuaristas, mineradores e produtores agrícolas e enfatizar a hipocrisia e todas as incoerências ditas por eles.

Mesmo não sendo sempre necessário, afinal a mente desses “homens de negócios” parece trabalhar apenas visando o lucro, o diretor buscou tornar seu filme ainda mais instrutivo ao escalar os atores Juliano Cazarré e Valéria Pontes para as falas dos empresários. Isso da forma mais direta possível, colocando-os em um fundo preto e direcionando suas falas diretamente para o espectador, que não deve ter dificuldades de aceitar as opiniões trazidas por eles.

De fato, o longa apresenta acusações gravíssimas e um grito desesperado por socorro de um dos mais antigos ecossistemas encontrados no país. Embora o diretor não tenha encontrado maneiras inventivas de discorrer sobre o assunto, é visível que essa decisão não configura um equívoco, pois a real função da obra é realmente informar sobre o que está acontecendo com esse ser tão velho, o cerrado. Reunindo todos estes diversos dados relevantes – e muitas vezes chocantes -, e confrontando-os com a covardia, imprudência e inconsequência dos verdadeiros responsáveis por esse problema, André D’Elia procura estimular a busca por mais informações, e talvez, quem sabe, atitudes efetivas. Para o bem da natureza, esperamos que ele atinja esse objetivo.

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