O Texto a seguir contém spoilers da segunda temporada de 13 Reasons Why

Quando a série 13 Reasons Why chegou ao catálogo da Netflix, no ano passado, um debate poderoso se espalhou pela Internet ― e também para fora dela ― a respeito da sua abordagem sobre um tema tão delicado como o suicídio, para um público tão delicado como os jovens-adolescentes.

A adaptação do livro de Jay Asher, livro homônimo e que serve de base para a trama, acompanha na primeira temporada a morte de Hannah Baker (Katherine Langford) e os impactos causados por uma série de fitas gravadas pela própria jovem, que relatam os porquês que a levaram tirar sua própria vida.

Após a repercussão dos primeiros 13 episódios da série, a Netflix surpreendeu ao anunciar que a trama ganharia um novo ano ― tendo em vista que toda a narrativa literária havida sido concluída ― para alguns, completamente desnecessário, para outros, essencial para fechar algumas pontas soltas do primeiro ano.

A segunda temporada chegou no dia 18 de Maio (coincidência ou não, no Brasil é marcado como o dia do Combate ao Abuso Sexual) e propõe uma despedida a Hannah Baker, encerrando seus arcos não resolvidos; lamentavelmente, durante esse processo, a produção comete o terrível erro de introduzir assuntos ainda mais delicados, sem antes executar um desfecho digno para um enredo tão forte.

Durante a primeira temporada, somos marcados pela polêmica em torno do próprio suicídio de Hannah e da violência sexual sofrida por ela e por Jessica Davis (Alisha Boe), além de uma tentativa de suicídio por parte de Alex Standall (Miles Heizer). Não há uma resolução dos impactos da morte de Hannah, não há uma conclusão para as consequências do estupro das personagens, nem muito menos para os efeitos de um novo suicídio, sem falar no vislumbre do arsenal de Tyler (Devin Druid) ― essas duas últimas sequências sendo entregues no final. Ganchos demais que precisavam ser solucionados.

Cinco meses após os acontecimentos, a série retorna e vai ao reencontro de Clay e dos demais personagens, no meio da turbulência causada pelas fitas. Todos em uma ofegante busca por paz de espírito ― alguns se apoiando na busca por justiça, outros se esforçando para o esquecimento. Cada episódio uma narração e ponto de vista diferente, reforçando o mote da “verdade e suas versões”.

Com episódios extensos, quase uma hora por capítulo, e um desenrolar arrastado, não há uma dinâmica que prenda nossa atenção, como a sequência das fitas que nos prendiam. No lugar delas, o papel vintage vai para as polaroids.

Hannah retorna para a nova temporada além dos flashbacks, ela participa ativamente do presente e isso é intrigante. Pode se mostrar interessante a presença dela como recurso narrativo, a medida que vemos o desgaste emocional de Clay Jensen (Dylan Minnette), mas a sensação de insensibilidade permeia a atmosfera do espectador. Uma sensação de tentativa de suavizar o fator trágico, o suicídio.

Enquanto a narrativa tenta preencher ― particularmente, desconexamente ― as lacunas em branco, através de um julgamento ― particularmente, insustentável ― novos problemas ainda mais complexos são introduzidos no processo.

A trama vai longe e acerta ― nos raros momentos ― ao mostrar a vida nas ruas somada com a dependência química de Justin, a separação de Olivia e Andy Baker (Kate Walsh e Brian d’Arcy James) e os dilemas do conselheiro Kevin (Derek Luke). As sequelas e a recuperação de Alex é um ponto positivo para a trama.

A produção parece ter as mesmas atitudes inconsequentes dos seus personagens ao não evoluir a construção da maioria deles. Intérpretes de Jessica Davis, Justin Foley e Olivia Baker (Alisha Boe, Brandon Flynn e Kate Walsh, respectivamente) são os melhores arcos dramáticos e os que entregam as melhores performances. Falando em Olivia Baker, a personagem ganha uma espécie de senso de maturidade, de responsabilidade, de compreensão sobre as conturbadas vidas dos jovens ao seu redor que surte um bom efeito.

Um desenvolvimento interessante na série é o desgaste das imagens da família e da escola, para além do tribunal. A tentativa da escola de salvar a sua imagem, somada aos esforços de controlar os alunos com dinâmicas de censura, além do relacionamento de Clay, e dos demais personagens, com as sua famílias. Estamos vidrados com o julgamento da Família Baker e da Liberty High School ― já que é ele é a ponte com a temporada anterior ― que é impossível acompanhar as novas camadas que são abertas.

É pano pra manga pra mais e mais temporadas. Situações não ajudam a alinhar o roteiro ― cadê a humanidade dos personagens? Clay já não está atormentado com os acontecimentos passados? Como a complicada relação dele com Sky pode ajudá-lo? Nesse último caso vemos um bom desfecho, mas que na verdade nem deveria existir.

Diferente de Clay e Sky, há outras aproximações, algumas bem improváveis, que conseguem solidificar um pouco o enredo; como Clay e Justin, Alex e Zach (Ross Butler) e Jessica com a nova personagem Nina (Samantha Logan). Essas duplas rendem boas sequências e trazem alívio para as tensões. Entretanto, enquanto alguns coadjuvantes ganham novas camadas e, consequentemente, destaque, outros vão sendo negligenciados ao longo da temporada ― é o que caso de Marcus (Steven Silver) e Shery (Ajiona Alexus). ― É nesse ponto que estou tocando desde o começo da crítica.

Mas a polêmica que incide sobre essa segunda temporada é o personagem de Devin Druid, Tyler, que desde a temporada passada vem deixando brechas para um surto, uma explosão resultante de uma série de bullyings. Não é preciso pensar muito para saber que explosão seria essa.

A forma como essa situação e o seu personagem são construídos é bastante, digamos, leviana. A dinâmica de amizade dele com os novos personagens traz uma premissa interessante no ínicio mas se revela como a maioria: falha. Os caminhos que levam a sequência de violência e estupro de Tyler é de gradatividade surpreendente, mas de uma inconsequência terrível. Não houve sensibilidade, nem tempo, para os espectadores assimilarem a cena mais marcante da série. O recurso para estopim era esperado mas não dessa forma.

Não sei se pra você está cansativo de ler, mas preciso confessar que está bastante cansativo de escrever. São inúmeras falhas que me deixam ofegantes. É interessante que 13 Reasons Why segue uma linha de mostrar os problemas presentes na vida dos adolescentes no ambiente escolar, embora não esteja preocupada em trazer soluções para o que é dramatizado.

Posso afirmar que não há uma constância nos personagens, que nos façam sentir uma nuância gradativa dos seus dilemas. É tudo muito amplo e muito superficial, tornando a série uma sequência de adolescentes tomando atitudes inconsequentes, que embora seja a marca dessa fase, é inescrupuloso na produção da Netflix.

A série foi rotulada de irresponsável, por uma parte do público, quando mostrou o suicídio em detalhes e parece que não aprendeu nada com as críticas. Abortou situações delicadas de forma imatura. Colocar um estudante no meio de um potencial massacre na escola, sem nenhum contato com as autoridades ― romantizou mais uma vez uma situação problemática, com profundas feridas na sociedade americana. Apenas eu tive essa sensação?

Desde o início, 13 Reasons Why nos apresentou intenções que vão além do entretenimento, nos apresentou uma narrativa poderosa de impacto social ― não que outras produções da indústria não nos mostre isso, mas a série da Netflix foi intencional. Debates e mais debates surgiram, a própria campanha de divulgação da série foi além e teve propósito (ou apenas para atender recursos jurídicos?).

No final das contas, a produção da Netflix se rende a monetização e abre mão de um produto com valores, marcando a indústria.

Só nos resta saber qual será o próximo recurso vintage… LPs, disquetes…Afinal, um terceiro ano já foi encomendado.

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