Mais sinceridade, Pablo.

Todos que respiram o mundo da produção audiovisual nas terras tupiniquins devem ter tomado conhecimento da recente polêmica envolvendo o crítico Pablo Villaça, editor do site Cinema em Cena, e a gigante do streaming, Netflix.

Pablo, frustrado com a recente produção “O Mecanismo”, conclamou a população brasileira a cancelar sua assinatura do serviço, alegando, em seu site, que a “repulsa diante do que foi feito na série foi apenas a gota d’água para fazer algo sobre o qual eu (Pablo) já vinha refletindo há tempos”, afirmou. Já no twitter, a justificativa apresentou-se de uma maneira um pouco mais dura: “vocês querem Cinema de qualidade em vez de merdas recicladas e de um acervo óbvio que não faz a menor ideia do que o audiovisual representa? Cancelem sua assinatura da @NetflixBrasil e assinem o @mubi. INFINITAMENTE melhor”, completa.

E aí resta a pergunta para quem chegou aqui sem entender o contexto da briga: o que a Netflix fez para deixar Villaça tão furioso? Bem, o próprio também respondeu essa lá no twitter: “Porque (Padilha) gosta de mentir como todo filhote de Bolsonaro e do MBL. O que ele tem de bom diretor, tem de… nem vou completar”, desabafou o editor.

Na verdade, Pablo aparentemente se irritou por considerar a produção um estandarte para os membros da “direita” brasileira e pelas supostas mentiras veiculadas na obra (ainda que conste o esclarecimento de que o programa é uma obra de ficção inspirada livremente em eventos reais e que personagens, situações e outros elementos foram adaptados para efeito dramático). Em seu texto, Villaça explica que achou “uma tremenda irresponsabilidade em tempos como os nossos, atribuir a Lula a famosa conversa entre Romero Jucá e Sérgio Machado, sobre estancar a sangria, e suas manipulações narrativas desde o primeiro episódio para demonizar a esquerda”.

A principal questão é: há algum problema em defender seu posicionamento político? Do meu ponto de vista, não. Admiro o trabalho de Pablo e o acho um ótimo crítico, embora tenha minhas discordâncias ideológicas (que também não encaro como nada de outro mundo). Mas acho que nessa ocasião houve um problema sim. Acho, na verdade, que faltou sinceridade, Pablo. Especialmente com seus leitores.

Em qualquer profissão, especialmente quando somos bons no que fazemos, devemos permanecer constantemente alertas para que não usemos nossos argumentos técnicos e escopo profissional como subterfúgios desonestos para provar um ponto de vista ou defender determinada posição. Exemplifico. Não acho que um técnico de futebol, por não gostar de um jogador (pode acontecer), deva se esforçar para lançar mão de todas as suas ferramentas profissionais para diminuir suas qualidades, mas tão somente deva admitir que não gosta dele, apontando, no máximo, seus reais defeitos, provavelmente vislumbrados também por outros.

O posicionamento político de Pablo fez com que ele declarasse guerra ao serviço, não pela qualidade técnica da produção, ou seja, não como crítico de cinema, mas pelo viés político assumido por ele. Para quem trabalha com análises técnicas, não se espera que as coisas funcionem assim, afinal, com tanta coisa sendo produzida, seria uma baita infantilidade achar que nunca discordaríamos das mensagens de algumas produções, não é?

Imbuído do sentimento de ódio gerado pelos fatos (o próprio admitiu que esse foi o sentimento), Villaça procurou de todas as maneiras inferiorizar as produções do serviço de streaming, lançando mão de argumentos um tanto quanto hipócritas para justificar o que no fundo não passou de uma divergência política. Será que, aos olhos de Villaça, se o posicionamento político da série fosse oposto, a Netflix continuaria “não prestando”?

Reitero: acho que o editor tem TODO o direito de militar pelo que acredita e criticar o que considera prejudicial à nação. Entretanto, acho que a forma mais honesta de passar essa mensagem para seus leitores seria dizendo seu real motivo, sem camuflagens técnicas para provar seu ponto. Travestir uma mensagem sobre suas paixões políticas e militância como crítica definitivamente não é a melhor forma de se comunicar com sua audiência.

Vale lembrar que, graças a Deus, a completa sinceridade ainda é objeto da admiração dos seguidores conscientes, inclusive daqueles que pensam diferente de nós.

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