Agatha Christie continua conquistando fãs e leitores ao redor do mundo com seus livros de suspense e investigação mesmo depois de sua morte. Agora, uma de suas obras mais famosas – se não a mais – busca consolidar nos cinemas um sub-gênero de filme, manter os fãs da autora presos à cadeira do cinema e trazer amantes da sétima arte para compor o público. Esse é o objetivo complexo de Assassinato no Expresso do Oriente, que já possui uma adaptação cinematográfica, lançada em 1974. Entretanto, apesar da paixão efervescente do realizador Kenneth Branagh pela obra original, o diretor não consegue transmitir em tela as peculiaridades de tanto sucesso da autora, e o filme fica mais marcado pelo potencial desperdiçado.

O longa adapta o livro homônimo de 1934 e conta a história de um famoso detetive, Hercule Poirot (Kenneth Branagh), que busca escapar de seu trabalho e conseguir um tempo de férias. Surge uma oportunidade para que fique em um expresso que passará três dias viajando, deixando o inspetor longe de problemas – ou assim imagina. Entretanto, um dos passageiros, Ratchett (Johnny Depp) é assassinado e sobra para Poirot ter que resolver o crime, interrogando todos os diversos passageiros para que possa descobrir o autor do assassinato.

O próprio trailer do filme apresenta uma dinâmica de investigação bastante interessante, em que o detetive se encontra em uma situação em que realmente não sabe em quem confiar. Ele possui diversos suspeitos e não tem ideia de quem possa ter feito aquilo, apesar das possíveis evidências. Essa noção de desconfiança total e esse clima de suspense intrínseco tanto no trailer, quanto nas próprias obras de Agatha, é jogado de lado no filme. Apesar de o início da investigação dar um gosto disso, o clima no expresso não gera em nenhum momento esse sentimento de desconfiança, nem faz com que o espectador se sinta no lugar do detetive, tentando descobrir quem cometeu o assassinato. A tarefa que o trailer promete de tentar descobrir o autor do assassinato – e que deveria ser algo divertido para o público, até mesmo parecendo com o jogo de tabuleiro Detetive – é totalmente maçante, cansativa e decepcionante.

Outro problema estrutural está na investigação como um todo. O filme dá um foco especial para Daisy Ridley (de Star Wars: O Despertar da Força), o que é totalmente desnecessário, forçado e maçante, especialmente pelo fato de que sua personagem não tem tanta relevância na história. Além disso, a investigação de Poirot caminha a passos lentos demais durante o segundo ato do filme, estendendo o tempo de duração de maneira que canse o espectador, e repentinamente acelera, funcionado descompassadamente e tornando o filme inconstante. Para piorar ainda mais, a pessoa responsável pelo assassinato é revelada apenas no final, mas já na metade do longa já é possível matar a charada, o que torna o filme bastante previsível e frustrante, e fazendo os últimos quarenta minutos soarem inúteis.

O grande mérito do filme está na apresentação do detetive Hercule – que deve consolidar uma base para futuros filmes -, suas peculiaridades, sua genialidade e seu background, que é visto apenas sutilmente, mostrando um possível passado traumatizante. Para complementar essa boa receita, o diretor do filme, Kenneth Branagh – que interpreta o detetive também -, é bastante competente no comando do filme. Seus longos takes mostrando a ambientação, seus planos-sequência bem trabalhos entregam um show visual e ressaltam aos olhos, sendo a melhor coisa do filme. Há certa falta de habilidade quando se trata de dirigir as cenas de ação, mas nada que incomode de fato.

A tentativa clara, também, de tentar estabelecer quem é esse detetive é justificável por duas razões: a primeira delas é para mostrar o radicalismo do personagem quando se trata de identificar o certo do errado, mostrando suas crenças – e apresentando até mesmo suas manias e idiossincrasias. O outro motivo é o de tentar estabelecer, mesmo que de maneira sutil no começo, um possível plano para a construção de uma franquia. Não é à toa que a Fox já oficializou a continuação do filme e já insere no longa pistas do vindouro filme com o detetive. Apesar de precoce, essa inserção funciona de maneira positiva, especialmente para entender melhor quem é esse personagem que o espectador há de acompanhar pelas próximas duas horas, levando a uma identificação bem-vinda.

O filme também consegue retratar questionamentos levantados por Agatha Christie em suas obras. A questão de “o que é o certo e o que é errado?” é trazida em tela sem soar forçada, misturando o preto no branco e apresentando uma noção de ambiguidade e dualidade muito bem-vinda à trama. Apesar de não ser o verdadeiro foco, mostra o comprometimento de Branagh em manter detalhes essenciais da obra original e da autora à adaptação.

Como um filme de investigação, Assassinato no Expresso do Oriente é bastante frustrante e previsível. A sensação que fica é que o potencial de criar uma história de suspense de qualidade foi dispensado a fim de que personagens não tão importantes fossem explorados e um “universo Agatha Christie” fosse consolidado no cinema. A trama descompassada não ajuda também, fazendo com que o espectador passe a maior parte do filme com sono – especialmente devido à previsibilidade do roteiro. É um filme redondo, com um roteiro simples e previsível e uma direção de qualidade, que ainda não salva o filme de seu potencial desperdiçado enquanto longa de suspense e investigação.

Nota: 3/5

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