Se existe algo que vem atrapalhando as produções televisivas e cinematográficas nos últimos anos, é a tal da expectativa. Ela mesma, a que frustrou os espectadores de Batman Vs Superman, Esquadrão Suicida e tantos outros nos últimos tempos. A coisa é ainda mais séria quando a campanha de marketing é excelente, caso de Esquadrão Suicida e da mais recente obra original Netflix em parceria com a Marvel. Punho de Ferro é o último herói a aparecer em série própria antes do lançamento dos Defensores, previsto para o próximo semestre. E é bem verdade que, se essa parceria já começava a mostrar falhas desde Jessica Jones, em Punho de Ferro os erros parecem ser ainda mais evidentes.

A trama acompanha a história do jovem Danny Rand, herdeiro de um império industrial que em sua infância perdeu seus pais e foi o único sobrevivente de um grave acidente de avião próximo ao Himalaia. O protagonista é resgatado e treinado pelos monges de K’un-lun, (cidade situada em outra dimensão, mas que aparece no plano terrestre a cada quinze anos), para ser a nova arma viva, o Punho de Ferro, o maior dos guerreiros.

Apesar de bem produzida, a série dá a impressão de ser um longo filme cortado em 13 partes. Com diálogos longos, recheados de frases de efeitos clichês e um roteiro que demora a engatar, a produção não consegue preencher as expectativas do público nos primeiros episódios. A prova da demora no desenvolvimento da narrativa é que são necessários quatro episódios apenas para que Danny prove ser quem diz e contar um pouco sobre o que aconteceu após seu acidente.

Tal qual Doutor Estranho para o universo cinematográfico, esperava-se que Punho de Ferro nos mostrasse mais do mundo místico da Marvel, diferenciando o herói dos outros Defensores. Ao contrário disso, Rand acaba sendo apenas mais um herói urbano, como Jessica Jones e Luke Cage. A própria realidade dele em K’un-lun não é bem explorada, muito menos seu treinamento, falha grave para quem quer construir um personagem com um histórico tão rico. Além disso, Finn Jones tem considerável dificuldade em transparecer a dureza necessária ao protagonista, e por vezes acaba imprimindo uma inocência que tira um pouco da credibilidade do maior dos guerreiros. O ator, que ficou bastante conhecido por interpretar Loras Tyrrel em Game Of Thrones, se esforça, mas nem sempre convence no papel.

Outro fato problemático acerca da série está na construção dos objetivos do personagem. O grande inimigo de K’un-lun, e por consequência do Punho de Ferro, é o Tentáculo, aqui representado (assim como em Demolidor) pela Madame Gao, figura pouco explorada na série. Embora Danny enfatize diversas vezes ao longo dos episódios que o principal objetivo do Punho de Ferro é derrotar o tentáculo, isso não é aparente em suas atitudes. Como afirmado pela própria Gao no sétimo episódio, a sensação é que o protagonista na verdade quer apenas voltar a ser o velho Danny. Nunca dá pra saber de qual lado Joy e Ward Meechum está, num piscar de olhos podem ser mocinhos ou vilões. Harold que usa Danny para se libertar do jugo do Tentáculo tem uma evolução repentina na trama. Por fim, a ascensão de Bakuto como substituto de Gao torna o objetivo cada vez mais confuso.E, convenhamos, não é isso que o público espera.

Colleen Wing é uma das personagens mais bem construídas, com uma trama bem desenvolvida e uma atriz (Jessica Henwick) que faz jus ao papel. Além de apresentar boas coreografias de luta, Jessica consegue transparecer muito bem todas as emoções de Wing, fazendo com que facilmente shippemos Colleen e Danny. Já Claire Temple surge meio que do nada, em uma cena superficial e descuidada, apesar de sabermos que ela é na verdade o principal elo entre as séries da Marvel e possivelmente a responsável por unir os Defensores. Seu papel já é bem estabelecido dentro do universo das séries da Marvel e é através dela que surgem as poucas citações aos outros heróis, que fez com que ela tivesse a experiência a ser passada para o herói novato.

Esperávamos que nessa primeira temporada pudéssemos entender mais sobre K’un-lun, sobre o passado dos personagens, sobre o treinamento do Punho de Ferro, sobre o Tentáculo, mas a série parece se preocupar tanto com as rotinas da vida do protagonista e com a saúde corporativa da Rand que todo o background do enredo parece acabar ficando pra segundo plano.

Apesar do fracasso frente à crítica – a série tem atingido índices inferiores a 40% de aprovação em sites como Rotten Tomatoes e Metacritic – Punho de Ferro parece ter caído no gosto popular: a audiência tem atribuídos percentuais superiores a 80% de aprovação em sites como Rotten Tomatoes e IMDB.

Vista fora do panorama dos heróis da Marvel, “Iron Fist” (nome original da série) não impressiona, mas também está longe de ser uma série ruim. Com um enredo interessante e bons personagens, o contexto da história cativa e mantém o expectador atento aos acontecimentos episódio a episódio. No entanto, quando analisada dentro do universo Marvel e do contexto dos Defensores, há inegáveis pontos negativos que devem ser assumidos e – esperamos que – corrigidos.

Resta-nos agora esperar a reunião dos Defensores e que Danny Rand, o pior Punho de Ferro da história (palavras da própria série), possa aprender alguma coisa com quem já está nas ruas e apresentar a força e dureza que o “cargo” impõe.

PS: A abertura da série é muito boa!

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