“Nós morremos mais vezes do que pudemos contar”, diz Praire, protagonista de The OA. Sob a perspectiva de que haja vida após a morte, criadores de The OA reúnem diversos elementos que vão da ficção científica ao suspense no novo drama da Netflix.

Não é de hoje que os amantes do gênero Sci-Fi se debruçam para construir roteiros que abordam o destino da humanidade após a morte. Muitas são as tentativas de explicar o que vem após o fechar dos olhos e se de alguma forma é possível acessar esse “outro plano”. Devemos concordar que a forma mais óbvia de saber mais sobre um local que não conhecemos é perguntando a alguém que já esteve lá, certo? Essa é exatamente a premissa de The OA, nova série original da Netflix.

Dos criadores Zal Batmanglij e Brit Marling (atriz que interpreta a protagonista da série), a produção conta com apenas oito episódios com durações que variam de 40 minutos à 1h20. Lançada em Dezembro de 2016, The OA já é considerada por alguns como a melhor novidade do gênero Sci-Fi do ano na Netflix, depois de The Black Mirror. O site Rotten Tomatoes registrou para a série uma aprovação dos críticos de 72% baseando-se em 36 resenhas, com uma nota média de 7,5/10 e uma aprovação do público de 73%. No IMDb, The OA atualmente detém uma nota 8,1 de 10 em um total de mais de 17 mil avaliações no site. Brad Pitt, Dede Gardner, Jeremy Kleiner e Sarah Esberg, da Plan B (produtora indicada ao Oscar por 12 Anos de Escravidão) e Michael Sugar, da Anonymous Content (True Detective, Mr. Robot e The Knick) são os produtores executivos da séries junto a Marling e Batmanglij.

The OA conta com um excelente elenco, embora a maioria dos atores e atrizes não tenham carreiras de grande repercussão internacional. Dando vida a personagens bem elaborados e características complexas, as atuações de Emory Cohen (Homer), Scott Wilson (Abel Johnson), Alice Krige (Nancy Johnson), Jason Isaacs (Dr. Hunter Hap), Phylliss Smith (Elizabeth Broderick-Allen), Patrick Gibson (Steve Winchell), Brandon Perea (French/Alfonso Sosa), Brendan Meyer (Jesse), Sharon Van Etten (Rachel), Ian Alexander (Buck Vu) e Vai Brill (Scott Brown) são de tirar o chapéu. Outro ponto fascinante da produção é sua fotografia, muito semelhante aos romances europeus, com pouca saturação e planos amplos, além de dinâmicas de câmera que fazem com que nos sintamos dentro da série, fugindo do lugar comum se tratando de ficção científica.

A série tem início com a forte cena da tentativa de suicídio da protagonista, Praire Johnson, que se lança de cima de uma ponte. Uma das características da cena já mostra a originalidade da produção: a série tem início com uma gravação de celular ( e em modo “retrato”)! Em seguida, somos apresentados a história da garota, até então desaparecida por quase uma década. Além do burburinho causado por sua volta, um outro fator chama a atenção das pessoas da região: quando desapareceu, Praire era cega, mas agora a moça retorna enxergando normalmente. Tendo de lidar com o assédio da imprensa, as investigações do FBI sobre seu desaparecimento e as consequências da distância da família, a protagonista articula uma estratégia para colocar em pratica uma suposta missão que envolve uma série de conhecimentos apreendidos durante seu desaparecimento. Para colocar seu plano em prática, Praire recruta cinco indivíduos repletos de problemas pessoais e começa com eles uma profunda jornada de imersão em sua história, contando-lhes desde suas premonições infantis ao cativeiro em que esteve presa durante sete longos anos.

Ao longo dos oito episódios que compõe a primeira temporada, somos detalhadamente apresentados à jornada de Praire, desde sua infância até seu retorno após uma quase uma década desaparecida. Com uma dinâmica semelhante à utilizada em “As aventuras de Pi”, The OA flerta com a tênue linha entre a realidade e a fantasia, entre o profundo conhecimento das coisas e as invenções de uma mente emocionalmente abalada por um grande trauma. A série traz à tona questionamentos existenciais milenares, como “existe vida após a morte?”, “podemos voltar ao plano atual após morrer?” ou mesmo “é possível que existam outras dimensões além da que vivemos?”. Apesar de um tanto quanto confusa a priori, a produção não parece ter a pretensão de responder de maneira objetiva a nenhum dos questionamentos levantados, mas sim levar o expectador a um grau de incomodo intelectual em que ele anseie por essas respostas.

Como nem tudo são flores, é preciso reconhecer que a série tem um ritmo um pouco lento, com cenas um pouco enfadonhas eventualmente, mas ainda assim com episódios bem encaixados, costurando de forma coerente toda a história. Apesar do enredo bastante complexo, o último episódio da temporada fecha a narrativa de eventos proposta em seu início, embora deixe uma série de pontos em aberto que parecem apontar para uma segunda temporada.

Em um ano com excelentes produções do gênero Sci-Fi, The OA é uma série diferente sob diversos aspectos, desde o enredo até mesmo a produção técnica. Seu ineditismo cativa os amantes da ficção científica e faz o que se espera de toda boa série do gênero: mantém sua cabeça ligada nos eventos da narrativa mesmo após a conclusão dos episódios. A primeira temporada está disponível na Netflix desde 16 de dezembro e não há previsão de estreia para segunda temporada, embora Batmanglij tenha dito, em entrevista à Variety,  que “se vai acontecer ou não – a segunda temporada -, depende de vocês, todas as pessoas no mundo. Se as pessoas se conectarem a série. Gostaria de ver essa história continuar. Brit e eu já temos toda a história em mãos”, completou.

Uma coisa é certa: a série já figura, merecidamente, entre os grandes destaques do catálogo da Netflix. A trama, a direção, o elenco e a proposta são excelentes e a execução técnica é um show à parte. Então prepara a pipoca e senta no sofá que vale muito a pena conferir The OA.

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