É muito provável que, ao menos nos últimos 30 dias, você tenha visto algum post nas redes sociais de um amigo que estava assistindo Black Mirror. Normalmente essas publicações costumam ser seguidas por legendas do tipo “Essa série está desgraçando minha mente”. Talvez até mesmo você tenha sido uma das pessoas que postou algo assim. E nada disso acontece por acaso.

Black Mirror é uma série antológica britânica, com três temporadas e apenas doze episódios, além de um “especial” de Natal. Cada episódio mostra uma história diferente, sempre com temas sombrios e que fazem alusão ao estilo de vida moderno, com ênfase na inclusão da tecnologia no dia a dia da sociedade.

A verdade é que por diversas vezes a série se demonstra assustadoramente real, mostrando que estamos cada vez mais cercados por todos os lados pelo “Black Mirror” (Espelho Preto, em tradução livre). A tela do seu celular, seu aparelho televisor ou o monitor do seu notebook, desligados são só telas pretas, mas ligados podem muitas vezes refletir o “eu” mais obscuro de cada um. E a grande questão é que o encontro com esse nosso outro lado pode ser doloroso e assustador, sensações constantemente passadas pela série.

Ao analisar a produção episódio por episódio, fizemos uma divisão em três categorias:

  • Comportamental: episódios que tratam diretamente ou fazem analogias à maneira como convivemos com a tecnologia;
  • Futuro Próximo: episódios que abordam temas relacionados a tecnologias que ainda não dominamos, mas que já estamos perto de dominar;
  • Futuro Distante: São episódios onde as chances das situações ocorrerem na vida real são quase nulas (ou assim esperamos).

Para nossa surpresa, os episódios que tratam aspectos comportamentais compõem quase 70% da série. É sobre esses episódios que vamos falar. Abaixo listamos oito capítulos da trama que mostram que já estamos no futuro “predito” por Black Mirror.

1. The National Anthem (Temporada 1 – Episódio 1) 

Para salvar a vida de uma jovem em perigo o Primeiro Ministro Britânico precisa gravar um vídeo humilhante em rede nacional, dividindo opiniões se ele deveria ou não fazê-lo.

Reflita agora quantas vezes deixamos o certo ou errado de lado contanto com que o show continuasse.

2. Fifteen Million Merits (Temporada 1 – Episódio 2)

O episódio mostra pessoas vivendo em cubículos, com um nível baixo de socialização, onde quase todo esforço é gasto em consumo de programas de TV, ou, nos melhores casos, para se esforçar em fazer parte do show.

Big Brother, The Voice, X Factor, Ídolos, e tantos outros realitys que tantos sonham entrar e cujos espectadores torcem fanaticamente, são bons exemplos desse capítulo da série. O episódio traz à tona como isso tudo pode constituir formas de fuga de prisões que nós mesmos criamos.

3. White Bear (Temporada 2 – Episódio 2)

White Bear é sobre o voyeurismo como forma de justiça, mais um reality da nossa vida real.

Com o acesso facilitado a smartphones com câmeras cada vez mais potentes, cada um virou um pouco de juiz, paparazzi ou voyer. Queremos fotografar, postar ou fazer textão de tudo que flagramos. Afinal, quantas vezes já assistimos pessoas que cometeram atos terríveis e filmaram para publicar na internet?

4. The Waldo Moment (Temporada 2 – Episódio 3)

Waldo é um urso personagem de um programa no estilo talk-show. Quem dá vida ao urso é o comediante fracassado Jamie Salter através da captura de movimentos em computação gráfica. Após entrevistar um candidato político, Waldo ganha fama pela reação do político o que faz a produção embarcar numa perseguição política. Perseguição esta que se torna em uma candidatura do próprio urso.

Parece palhaçada né? Mas estamos tão desacreditados politicamente que costumeiramente cogitamos entregar o destino da sociedade nas mãos até mesmo de personagens de humor, como forma de “protesto”. Talvez se fosse aqui no Brasil teríamos outros candidatos do nipe de Waldo, já que por aqui até palhaço já ganhou.

5. Nosedive (Temporada 3 – Episódio 1)

Na sociedade em que o episódio é ambientado tudo funciona em um sistema de avaliação muito parecido com o que é usado em aplicativos como Uber. Como você se veste, anda, se comporta, tudo são alguns dos fatores avaliados por todos ao redor e sua média de pontuação vai ditar o que você pode consumir, se terá descontos em produtos, se fará amigos, terá privilégios, receberá convites e etc.

Muito parecido com a vida baseada em likes, dislikes, follows e unfollows que vivemos.

Ah, e se quiser saber como seria a sua pontuação nessa realidade (pra ir treinando para o futuro) basta acessar esse site: https://rateme.social

6. Shut Up and Dance (Temporada 3 – Episódio 3)

Shut Up and Dance é um daqueles episódios que fará você quebrar sua webcam, pagar um bom antivírus e tudo o que estiver ao seu alcance para se prevenir de hacker invasores. Nesse episódio várias pessoas são chantageadas por hackers após ter imagens captadas pela webcam através de um tipo vírus.

Na verdade, já somos bastante vulneráveis no mundo online e essa temática não é nova dentro do mundo do entretenimento, mas ainda assim sempre choca. Nosso histórico está nas mãos dos servidores, o que vemos, o que buscamos na internet, nossas fotos, vídeos já não são apenas nossos.

7. Men Against Fire (Temporada 3 – Episódio 5)

A cada quatro soldados em campo na 2° Guerra Mundial, apenas um disparava suas armas com a real intenção de matar os inimigos. Essa estatística é apresentada no livro ‘Men Against Fire: The Problem of Battle Command’ escrito em 1947 por S.L.A. Marshall, combatente da 1ª Guerra Mundial e historiador militar na 2ª Guerra Mundial. O livro claramente inspirou o título do episódio e algumas características dele.

Avanços tecnológicos e batalhas militares sempre andaram muito juntos: celular, gps, computadores, tudo isso em dado momento da história foi influenciado pelas guerras. Men Against Fire mostra não apenas um futuro onde a tecnologia é usada para guerra, mas um futuro onde se repete a crueldade humana em considerar outros seres humanos como inferiores.

8. Hated in the Nation (Temporada 3 – Episódio 6)

Quem nunca trovejou ódio nas redes sociais? Criticou uma página, perfil, artista? Quantas vezes vemos expressões como “nojo de fulano”, ou “uma pessoa dessa não deveria estar viva”? Encerrando a temporada e nossa lista, Hated in the Nation mostra a realidade dos “haters” nas redes sociais e o que pode acontecer quando esse ódio se volta contra o “odiador”.

Conclusão – Após refletir sobre tudo isso voltamos à pergunta fundamental: “A vida imita a arte ou a arte imita a vida?” Se tratando de Black Mirror, essa pergunta não é tão simples. A verdade é que a série serve para nos dar um baita murro no estômago e mostrar o monstro que está atrás do espelho, talvez nos dando a chance de reavaliarmos algumas coisas e os caminhos pelos quais estamos trilhando isso presente como sociedade.

Se você não assistiu a série ainda, não precisa de pressa. Os episódios não têm conexão de enredo entre si, sendo assim podem ser assistidos separadamente e “degustados” com calma.

Agora, se você já assistiu, conta aqui nos comentários o que você achou 🙂

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