A Netflix divulgou em dezembro o mecanismo de recomendação “global” do serviço e uma das coisas que mais chamou atenção foi seu valor: um bilhão de dólares por ano. Sim, são nove zeros amigos. Em meio ao burburinho causado pela notícia, a pergunta mais suscitada foi: será que algo “simples” como um mecanismo de recomendação vale uma cifra dessa magnitude? A resposta é sim e nós vamos explicar por que.
Com um funcionamento diferente da maioria dos mecanismos de recomendação, que tão somente classificam as produções com base numa média aritmética simples de votação, o mecanismo da gigante do streaming indica as produções a partir de um universo global de usuários com perfis semelhantes. Funciona mais ou menos assim: ao ver três estrelas classificando um determinado filme, você não está vendo uma simples média de votação dos usuários que assistiram, mas sim como usuários com perfis semelhantes ao seu classificaram aquela obra. E acredite: isso faz toda diferença.

O mecanismo reúne dezenas de algoritmos que coletam informações de sua conta e comparam com usuários semelhantes nos mais de 190 países onde o serviço está disponível. Segundo o Netflix’s Chief Product Officer Neil Hunt, “o efeito combinado de personalização e recomendações salva mais de US $ 1 bilhão por ano para a empresa”. Mas como assim? Na verdade é bem simples.

Em um trabalho acadêmico realizado por Gomez-Uribe e Neil Hunt, eles descreveram que “pesquisas de consumidor sugerem que os usuários típicos do serviço perdem o interesse depois de cerca de 60 a 90 segundos na busca por conteúdo, tendo ele verificado entre 10 e 20 títulos, observando em detalhes cerca de apenas três deles”, afirmaram. “Eles querem encontrar algo de interesse ou então o risco de abandonar o serviço é bastante substancial”, completaram. Sendo assim, se a Netflix tem até 90 segundos para cativar a atenção daquele assinante, é crucial que ele encontre conteúdo relevante o mais rápido possível.

Você pode pensar “mas será que o usuário não procura direto na barra de buscas”? Não. Por incrível que pareça apenas 20% das escolhas dos assinantes provém de buscas diretas na ferramenta, os outros 80% vem das recomendações direcionadas pelo serviço. Por isso é importante que o mecanismo de recomendação “acerte na mosca”. No final das contas, esse é o objetivo central do motor de recomendação da Netflix: oferecer, em poucos segundos, boas recomendações para alguém com aquele perfil específico, prevenindo assim o abandono do serviço para outras plataformas de entretenimento.

Levando em consideração que a média de gastos anual com produção de conteúdo da empresa é de cerca de 5 bilhões de dólares, o mecanismo representa um investimento altíssimo, mas com um retorno maior ainda. A Netflix acredita que poderia perder US$ 1 bilhão ou mais a cada ano com usuários cancelando seu serviço se não fosse por seu mecanismo de recomendação personalizado. E o mais interessante é que, na medida em que a cartela de clientes da empresa aumenta mais específicas ficam as recomendações para cada grupo, dando ao motor qualidade exponencial de melhora do serviço.

O “Global Recomendation Engine” (nome original do mecanismo) é a cereja do bolo de um já consagrado serviço de entretenimento que busca oferecer conteúdo de qualidade com o mínimo de esforço necessário e por um preço justo. Bem vindos à premissa básica digital do século 21.

 

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